Palavras que me vivem (Autora Convidada: Camila Anllelini)
Postado no 30 de maio de 2020 Deixe um comentário
Por: Camila Anllelini (Autora convidada).

Palavras que me vivem
Sempre fui de abrir a boca. Nunca me faltam palavras.
Na infância, ainda bem pequena, era preciso um tanto de convívio até romper meus silêncios. Mas elas estavam lá, quietinhas, esperando confiança pra engrenar. Depois de um tempo, começaram a sair sozinhas, às vezes meio embaralhadas, atropeladas, todas ao mesmo tempo passando pelo buraco da boca.
Fui percebendo que quando entravam nos ouvidos das pessoas, às vezes as faziam chorar. Outras, faziam sentir raiva e falar palavras que vinham mais do estômago que do coração. Com o tempo, achei que era melhor aprender a organizá-las, pra que me saíssem em fila, tipo desfile ensaiado. E assim, provocassem mais sorrisos do que choro. Porque até hoje, quando alguém diz palavras embaralhadas bem alto dentro dos meus olhos, quem chora sou eu.
Tem dias que o céu do peito está cinza e a gente não consegue abrir as janelas pra tirar a poeira. Mas nem sempre eu sei esperar dia de sol pra dizer. Quando as palavras se amontoam dentro de mim ainda insistem em sair desordenadas, feito criança em recreio de escola.
Todo dia tento organizá-las, mas elas são teimosas como eu. Tem dia que querem sair dispostas e bem vestidas, vez em quando saem mansas, como quem quer passar despercebido, mas às vezes ainda têm essa mania de sair desarrumadas pra passear pelos ouvidos que me atravessam a boca.
Se um dia me faltarem, vou precisar rodopiar bastante com os olhos no mundo pra fazer estoque de palavras. Mas mesmo nesse dia, vou deixar a porta aberta pra elas saírem sem medo de se perder de mim. Eu sei que quando vão, elas voltam cada vez mais maduras, de mãos dadas com as pequenas que vão chegando pra fazer novidade.
Camila Anllelini (@camilaanllelini)
Créditos da imagem: pinterest
Batalha sobre as ondas
Postado no 27 de maio de 2020 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

Batalha sobre as ondas
Devemos caminhar longe daquilo que nos faz mal,
Do que nos desalegre,
Ou que nos extermine.
Não é questão de regra,
De bom trato social.
Como se dizer adeus,
Para, enfim, reabraçar fosse anormal.
Mas há limitação entre o não triste ser
E a busca do que por bem vá guarnecer,
Para pretender – o melhor pretender,
Isso sim existe.
É feito achar-se no não terminado em oficial,
Mas que terminado está, antes que se termine.
Para que ter tal trabalho em querer compreender,
Se essa opção não traz remédio, quando nem remediada a vida será.
Melhor viver, deixar viver e passar.
Seguir sem o tédio de uma das grandes dores,
Quando hábil e sábio é ver a vida
em cada um de seus fartos e vários amores.
Que te amam quando te sentem perto,
Até, passado meio metro, já deixarem de te amar.
Mas se é feliz, em cada palmo,
Sempre e só enquanto se está.
Por isso ame, tal qual se ame,
E ame a outrens dando de si
Algum tanto de tudo e cada pedaço de nada.
Uma mistura de “algo a esconder”
Com outra pitada de “coisa alguma a temer”,
De sorte que,
Ao fim, em devoção,
Haja só boas lembranças, sorrisos e promessas,
Que receba dessas almas boas rezas
Na oração da longa estrada.
Quando, finalmente,
Ao encontrar alguém que ame,
E ame tudo em troca,
De tão exato,
Por certo nem perceberás.
Tanto correto dizer que assim não notas,
Fecharás outras portas,
Todas as quais deixarás,
sem despautério, sem duvidar.
E, portanto, adentrando em uma só razão e caminho,
Graças a cada traço de quem
Já te trouxe dor, fulgor, mas formou-te raiz,
Estarás, então,
Em alinho,
Feliz
E, desta vez,
Sem nem notar.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 23 de maio de 2020)
Noite na Montanha
Postado no 26 de maio de 2020 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Noite na Montanha
Ela chega e me cobre com o seu manto negro
E se despe mostrando seu corpo coberto de estrelas
Ó Noite, bela e sedutora,
Que mistérios escondes caprichosamente de mim?
Deixa-me ser seu amante,
Seu namorado, seu brinquedo!
Acalenta meu coração com teu beijo orvalhado
E nubla a minha mente com o teu abraço frio
Toma meu espírito e leva-me onde
Apenas aqueles que se entregam totalmente
Conseguem chegar
E lascivos, apaixonados e amorosos
Tornar-nos-emos apenas um
Deitados em uma cama de nebulosas
Cúmplices amantes do infinito.
Créditos da imagem: pixabay
Aquarela do Amor
Postado no 25 de maio de 2020 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Aquarela do Amor
Aquarela do Amor
Pinta suave
Pistache
Cores pastéis
Pinta brisa refrescante
Pinta palavras ditas com boca de generosidade
Pinta flores e primaveras
Pinta décadas, pinta eras
Pinta o que se sente e não consegue dizer
Pinta ritmo, serenata
Flauteia, cantarola,
Imagina, recria
Encanta, reconta
Fala de peito cheio
E, nos pincéis, delineia e desliza
As notas de orvalho
Do dia amanhecendo em Solitude,
mas nunca em solidão.
(24/05/20)
Crédito da imagem: Pinterest
Postado no 22 de maio de 2020 Deixe um comentário
Por: Victor Cabral

Várias queixas de você…
Porque fez isso comigo?
Corro, fugindo dos meus pensamentos em ti
Essa música tocando em meu ouvido
Várias queixas
Várias queixas de você…
Por que fez isso comigo?
Passo a noite nesse jogo, sem me divertir
No fundo, sempre quis ser seu preferido
Várias queixas
Meu corpo não cansa
Vagando sem ter o seu calor
Tão familiar: a única mão que me acaricia
Já pensei em ir aí, reclamar cara-a-cara
Várias queixas
Tão queixoso de você…
Porque fez isso comigo?
Nossa existência, esse amor
As palavras que você me ensina
Nossa rima é tão rara
Créditos da imagem: acervo pessoal do autor
Decúbito Final
Postado no 20 de maio de 2020 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

Decúbito Final
Quando tudo mais parar,
E o aperto descansar,
Que assim seja.
Que a alma possa se acomodar,
E o corpo parar de lutar
Para que o fim do amor cá esteja.
Finalmente, haverá tenacidade
e tranquilidade em perceber ser assim.
Que a certeza não põe cartas na mesa.
O coração esbraveja,
Mas tudo, afinal, é natural chegue ao fim.
Então, todos vão parar de falar,
Não haverá mais jantar.
E o que era futuro não será mais concreto.
É duro, mas haverá algum outro encontrar,
Logo um alguém para começar,
E o antigo amor estará encoberto.
É que a vida gira,
Mas somos nós que a empurramos a girar.
E só em outra vida
Pode haver um outro encontrar.
Quando então, passado todo o caminho,
E o corpo cansar, após longa idade.
Frente a Deus, pergunte,
Para se espantar.
Ele contará a verdade.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 27/04/2020).
Créditos da imagem: Somchai Chitprathak por Pixabay
Gota no Oceano Cósmico (Autor convidado: Maurício Luz)
Postado no 19 de maio de 2020 Deixe um comentário
Por: Maurício Luz (autor convidado)

Ninguém é imprescindível. Sempre que alguém desaparece, seja por qualquer motivo, depois de algum tempo a vida volta à sua normalidade. Pode não voltar à rotina e ao ritmo anteriores, mas em breve uma nova rotina e um novo ritmo surgem no lugar da anterior. E a vida continua.
Mas todos são insubstituíveis. Quem desaparece leva consigo sua capacidade de realizar, de sonhar, as experiências passadas e aquelas que estariam por vir. E as contribuições únicas que poderiam fazer não podem ser feitas por mais ninguém, pois ninguém é cópia perfeita de outra pessoa.
Somos prescindíveis mas insubstituíveis, o infinito contido na unidade. Feliz é aquele que é perfeitamente consciente de sua importância única, da exclusividade inata que lhe é concedida pela vida; e ao mesmo tempo, percebe-se como uma gota inserida no oceano cósmico.
Fotografia
Postado no 18 de maio de 2020 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Fotografia
Fotos, imagens
capturas de alguma coisa
Ou de coisa nenhuma
Depreende-se de fora o que está dentro
A foto e seu negativo
Colorido e contraste
Dois registros distintos
da mesma identidade
Coleto para ter comigo
Mostro o que me soa belo
A imagem transmite
Comunica
E ganha vida própria
Quem a recepciona
Vê apenas o que quer enxergar
E quem a tira
Quer levar consigo
para sempre
Aquele momento
que o faz relembrar
Marcas que ficam em impressões
Pedaço do todo que se fez recortar
Ângulos, luzes, sombras
Penumbras
Cores e ausências que se quis ou não revelar
Créditos da imagem: Pixabay.
Leveza da minha realidade (Autora Convidada: Raquel Alves Tobias)
Postado no 17 de maio de 2020 Deixe um comentário

Por: Raquel Alves Tobias (Autora convidada)
Leveza da minha realidade
Incoerência coerente
Conexão inconsequente
Do doar sem receber
Abismo do vôo livre
Derrame do transbordar
Melado doce das rimas
Que não querem descolar
Dentro do meu bom gosto
Você tem o gosto bom
Preciso
Aceito
E permito
Não quero a metade,
Interrompida pelo talvez,
Mas o inteiro completo do até breve.
Então, exploda.
(créditos da imagem: pixabay)
Carta em entrevista
Postado no 13 de maio de 2020 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

(Carta em entrevista)
Se a vida fosse sempre calada e nada incerta,
Passaria discreta,
Sem qualquer conotação.
Haveria só dores literais ou iguais sorrisos,
Talvez nada que opusesse a vida ideal que avalizo,
Porém sem o que nos elevasse além do chão.
Se a vida fosse sempre reta,
Seria dessalgada, descomprometida e não compromissada,
Talvez até sem razão de ser.
Não haveria o rubor das praças
Ou a graça do sons dos mares,
Nem as boas obras de milhões de exemplares,
Nada de bom a se tão bem viver.
Por essa razão que essa entrevista, tida em caminhada,
É muito mais do que jornada,
É tempo que conta,
Mesmo face ao nosso reclamo,
Em que pedimos ao tempo para pausar.
É rotação que roda igual para quem não quer parada,
Para quem quer só ter tudo, quando levará um nada,
Ou para quem só tem em contas
o amor que quer amar.
Se a vida fosse sempre reta e completa,
Não haveria pranto latente, desforço, nem meta
E a saudade só seria para os bem presentes,
Para fazer ainda mais felizes os já contentes,
E os descontentes, abandonar pelo caminho.
Mas se a vida fosse toda ajustada, não haveria poeta,
Pois, primordialmente, é quando a tristeza dá alerta,
Quando o amor capaz nos mata,
Ou o amor mordaz nos cega,
Que o verso deixa de vencer à prestação.
E vem se valendo de nós, feito toda uma reza,
chega de uma vez,
sozinho,
em inspiração.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 10/05/2020)
Créditos da imagem: pixabay
