Acima das Nuvens
Postado no 1 de dezembro de 2019 Deixe um comentário
Por: Thiago Amério

Acima das nuvens
Por cima do céu
É tudo azul e branco
Tipo Nossa Senhora
Que enxuga o pranto
De dia as nuvens
Parecem o lençol do céu
Lá é onde o espaço
Descansa do caos
Abaixo do sol e acima das nuvens
Há um mundo de calmaria
Onde os poetas revoam
E as palavras gingam maestria
Por cima de tudo, só há Deus
Não o sonso e ladrão de Hermes
Nem o interesseiro e corrupto dos milicianos
Tampouco daqueles que usam o evangelho
Como produto de dinheiro e de impropério
ELE que mora lá em cima respeita a todos
Da Maria Madalena, prostituta
Incluso os crackudos, da rua.
Inclusive os sem pais e mães.
Órfãos e carentes. Todo tipo de gente.
Vagabundo de gravata e pobre inocente.
Rico inconsequente. Indecente.
Até advogado que mente pra clientes.
Ou político que boicota o adversário
e faz hospital ficar sem leito.
E escola ficar sem jeito.
Sem curso e sem respeito.
Humanos e gentis, a prerrogativa desse Deus diz saravá.
Obuntu. Mukuiu e Namastê.
Esse é o Deus que acima de tudo
e de todos:
Ama você.
Thiago Amerio
29/11/2019 às 16h.
🚀Macaé x SP
Balaio Torto das Ruas
Postado no 27 de novembro de 2019 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia.

Dedico
Aos que emburrecem, ao viver o amor que eu não vivi.
Ao refrasearem a canção que não obrei;
Os refrões que, sem percussão, cantavam.
Ao criticarem os beijos sinceros que, beijados dela, dediquei,
Mas que eram pouco mais, para caminhar nos passos
Que, falseantes ou falseados,
mesmo importantes, não prossegui.
Pois, ainda das razões,
pouco sei…
Cumprimentariam-se todos,
Os que não deixaram a alma aberta e se expuseram;
Os que aceitaram a paixão correta e se engalfinharam.
Em uma rua deserta, beberam e bradaram
Porque por um instante feliz, eles foram.
Foram os haveres…
Por evitarem causos, sem querer anuências, como eu perdi.
Talvez por retinência de mudar tanto ares, como mudei.
Ao colecionar olhares, posto vivi.
Conservaram-se vulgares; nisso avisei,
Pois temem ser cotidiano,
e se atrapalham,
Ao pretenderem ter nobreza sem ter lastros de rei.
Mas isso é tão engano,
Que soa como um balaio tonto e torto,
Um louco falante nas ruas.
É como um enxadrista que se diz atleta.
Feito confundir copista e poeta.
Como esperar que a hora exata
Se enunciasse à alma;
nos notificasse, desse alerta.
Mas se em algo caminharam triste, tenho certeza.
Pois tudo que se inicia, ao fim se achega
E atormenta a calma, que se encantara
A ponto de não prever, tal como eu vejo
Que todo fim é o mesmo, quando acaba.
Ao menos felizes, todos foram.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 09/11/2019)
Créditos da imagem: pixabay
Quando o vento se torna em aragem
Postado no 20 de novembro de 2019 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

No marco zero, tudo é calmo e quieto
Que de tão silencioso é deveras isento.
É quando começa a aragem.
Que movimenta o silêncio
De rumor rigoroso, experto.
De acanhamento que chega a ser lento,
Mas que já muda algo em paisagem.
Ouve-se um zumbido que apita ao ouvido
Pois não há nada mais para se ouvir,
nem para ver.
Antes da aragem, que é ainda menos que a brisa,
Até onde as ondas do mar se alisam.
Nem uma folha:
não há o que se permita mover.
Tudo começa tão calmo,
Mas logo chega a aragem.
A disposição do mar é de um nada,
A calmaria impera.
Sequer há o que indique a direção do vento,
Que mal acaricia as velas.
Há morosidade, quase uma lerdeza,
O pundonor das coisas é um regalo a recolhimento.
O vento, sem disposição para nada, ele não se moverá.
Mas já move o véu da chama, que nem para isso inflama;
não balança a flâmula, que reclamarará.
O brio do silêncio é castiço
Não se mexem nem as folhas, nem os panos,
Posto que nada sequer nessa paisagem
tem a pretensão de mudar.
É espelhado e parado, sem reclamos, o mar…
Quando então o vento se torna algo mais que aragem.
Ainda que, sendo pouca a mudança,
Parece tudo inerte, dentre o que mais se avista ou avisa,
Dentre as gramíneas, há uma leve brisa.
Desfraldam-se atentos os tempos dos litorais.
É aragem, que ameaça ser ventania,
E nos varais já carregam as pazes e as camisas.
Mas não ainda bastante;
não solta as folhas lá dos coqueirais.
É caminho para quem espera a ver o momento
Que descaminha as cercanias;
Sobe um aroma de chuva, cheiro de grama ou de arruda no ar.
Chacoalha os contornos das águas,
E assim balança o mar.
Há a virada do tempo.
A vida para, espreita a ver o que passa.
É o início do vento.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, fev. de 2019)
Crédito da imagem: pixabay
Ruptura (Bianca Latini, autora convidada).
Postado no 18 de novembro de 2019 5 Comentários
Por: Bianca Latini

Ruptura
Hoje desejo fazer uma faxina geral
Varrer de mim, de minhas entranhas
Todo lixo acumulado
Todos os medos incorporados
Toda impotência acreditada
Toda menos-valia espelhada
Toda arrogância vestida
Toda dependência assumida
Sem saber que sou dona de mim e das minhas escolhas
Que não sou joguete na mão do acaso, das circunstâncias
Que, muitas vezes, vestida na pele de vítima, sou algoz
Esculpi-me como estátua inanimada
Que deve receber elogios, olhares e por vezes críticas, julgamentos
Me fiz refém e não contei com ajuda alguma para isso
Eu mesma fiz o trabalho de encarcerar-me e dar um monte de cópias das chaves para os primeiros que passassem
Hoje, desejo limpar esta cela, quebrar a escultura, transformar-me em pássaro que só vê o horizonte e infinitos ares para voo
Desejo integrar-me à natureza
A natureza de mim mesma
Que ainda não sei do que é feita
Mas, certamente, germinada pelo amor
(Por Bianca Latini, 10/4/19)
Crédito da imagem: pixabay
O que se vê só nos olhos
Postado no 13 de novembro de 2019 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

Sobre os olhos que não falam
E imaginam tudo da falsa verdade.
Não serenam, mas se calam,
Repercutem agudos, mudos,
esclarecidos, sem sinceridade.
Despejam sobre outros olhos, sem calma, todo rancor,
Tudo de súbita vez.
Transcendem a olhares agressivos,
Aqui já apreendidos, tal como já perceberam vocês.
Se os olhares não fossem surdos,
Ouviriam os sons do mundo,
O que há de real a ser reconhecido.
Sem julgares, fossem só olhares,
Olhariam, menos vulgares, mais apercebidos.
Menos desaforados, mais envaidecidos.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 12/11/2019)
Créditos da imagem: pixabay
Verso em Processo (Rua Acre, 80)
Postado no 6 de novembro de 2019 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

Levo a vida como posso
E dos meus dias faço verso.
A cada hora escrevo prosa
para os amores que eu prezo.
Mas aqui é o adverso,
Vejo lá a Guanabara.
Misturo o verso e o processo
E a luz do sol invade a sala.
E aqui desta janela,
Vejo a avenida e vejo o mar.
Se não há licença aqui para o verso,
Dou meu jeito de criar.
Mas se me volta a realidade
Que continua a ser bela,
Se a suspensão de liminar é incidente ou se é cautela.
E cada qual tem suas verdades.
Me adequo às filosofias
Na Justiça, a efetividade;
Com os poetas, a boemia.
Tanto me apego que me adequo,
Dou meu jeito de criar,
Faço rima em processo,
Canto verso, vejo o mar.
E ao adverso, insisto e prezo
Se há licença à boemia
À noite faço o meu verso,
Se o processo é meu dia.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 2006 – Rua Acre, 80)
Crédito da imagem: pixabay
Frango na Sauna (Parte 2)
Postado no 2 de novembro de 2019 3 Comentários
Por: Mona Vilardo

E foi nos últimos dois meses que o inusitado me pegou de frente. Uma crise de estafa acompanhada de uma crise aguda de ansiedade. Entrei para as estatísticas do mal do século?
Logo eu? Quem programou isso aí para mim? Em qual compasso estava escrito que isso ia acontecer? Essa aula de música eu perdi…
É, Mona…. Essa nota tá escrita no compasso da vida, que nunca dança conforme a música!
Como sempre, é importante ver os dois lados de tudo…. Atualmente me pego repensando em muitas situações. Não questiono a minha seriedade nas coisas que faço, que trabalho e que escolhi para viver, mas comecei a questionar o quanto me faz mal a culpa que me imponho quando algo sai diferente do que eu imaginei.
Logo eu que sou tão leve para os outros, para os amigos e familiares. Comigo mesma eu não sou assim, nunca fui. A leveza passa longe quando o assunto é olhar para dentro de mim.
Terapia, acupuntura, muita insônia, taquicardia e homeopatia estão sendo meus companheiros nesse momento de transição, eu diria.
Meu olhar está sendo modificado em relação às minhas escolhas e caminhos, ter tempo para fazer nada é tão importante quanto ter tempo para tudo. E a minha mais nova aliada nas noites de domingo é uma sauna bem quente no final do dia.
Escrevi esse texto logo depois de chegar do meu momento de sauna. Dentro da sauna tinha um frango para ser descongelado – de uma simpática vizinha minha.
Olhei para o frango e pensei: seria tão bom se as coisas inusitadas da vida fossem leves e engraçadas como esse frango aí dentro!
Mas não é, e a gente demora a aprender isso. Normalmente a gente aprende na doença, na marra…
Volto a escrever hoje aqui, me cobrando menos (pelo menos tentando), e o frango foi um prato feito para minha criatividade e, claro, para o jantar pós sauna.
Espero que eu aprenda cada dia mais que o inusitado existe, seja dentro da sauna ou dentro da minha vida.
Machado
Postado no 31 de outubro de 2019 Deixe um comentário
Por: Thiago Amério

Corta a lenha.
Esmera quando afiado.
Quando cego, machuca.
Se empunho com jeito
É instrumento perfeito.
Defende vulneráveis.
Ataca covardes.
Protege quem precisa.
Lapida a madeira.
Odin, tupã, Zeus ou Xangô
Machado é fogo de amor
Créditos da imagem: pixabay
Enquanto houver mar
Postado no 30 de outubro de 2019 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

Deve seguir a navegar,
Enquanto houver mar.
Falou-me, ao vento, o pescador antes de ir.
Zarpou no pesqueiro, recolhendo cordas
Para se soltar.
Foi tudo o que contou, antes de no mar quase se afogar.
Ou porque perdeu coragem,
Ou porque pecou por sorrir.
Soube por outrem que as ondas eram maiores que o barco
Mas de naufrágio não tinha medo o tal pescador,
Recolheu e içou velas, desacelerou
e acelerou no mar salgado
Que de tanto sal, salgava as gentes e os fardos
Sem ter abrigo ao cansaço,
vislumbrado-se desassossegado,
Mas não questionou: subiu mais ainda o clamor.
Quando o mar acalmou,
pretendeu de imediato que houvesse algo mais.
Mas nada mais havia.
Na úmida aflição entre peixes
Percebeu que ao deixar o cais,
era descontente, para quem a tudo tinha.
Mas tendo apegos por sonhos, isso ocupava sua paz.
Era a forma como vivo se fez ou ainda se faz,
Tem-se o modo como a vivacidade o mantinha.
Não entendeu porque na imensidão sem gente
O mar não mostrou-lhe apreço,
Só debruçou-lhe nem sob, do céu, gotas;
só do mar, amargas correntes.
Em que pese disposto a qualquer tempo ou vento,
Não contava mais,
Pois, como antes, o mar
Não mais lhe era, como já foi, fiel.
Sossobrou ao acreditar remando dentre torrentes,
Ao superar tempestades chegadas
Em um anuviar de repente,
E, mesmo assim, não ver nem terra, só mar;
Sem porto claro, nem céu.
Se era sol brilhoso, que queimava, se queixava.
E por lá também lamentou o dia nuvioso.
Tomou-lhe algo em alma entrelaçado, como em um opaco cordel.
Mas não se deve desistir de navegar
Enquanto houver mar.
E por haver mar,
Ao aportar, percebeu-se melhor do que ao partir.
Chegou sem peixe,
Mas quedou-se a retornar
Do infiel do mar,
Que dor causou,
Mas consertando o que levou,
Entregou-lhe tudo,
para outra vez repetir.
(Diogo Verri Garcia, 18/09/2019)
Créditos da imagem: pixabay
Frango na Sauna
Postado no 26 de outubro de 2019 3 Comentários
Por: Mona Vilardo
Olá, leitores do Literarte!
Ando bastante sumida daqui e aproveito esse espaço para explicar um pouco o que aconteceu. Expressar-se pela arte, ao meu ver, sempre é o melhor caminho, e confesso que passei algum tempo sem conseguir me expressar nos meus textos quinzenais. Pode ser inusitado isso, mas é real. Sem inspiração, sem coragem, sem escrever nada.
Acontecimentos inusitados nunca fizeram parte da minha vida, embora tendo feito 10 anos de aula de improvisação no Teatro O Tablado. Improvisar no palco é muito mais fácil do que na vida real. Hoje, analisando a minha trajetória artística que começou aos 8 anos de idade, vejo que o inusitado nunca esteve presente. A começar pelo que escolhi seguir: a música clássica.
Na música clássica não há espaço para o inusitado, para o “não ensaiado”. Sempre me recordo de como eu era refém da partitura quando estudei piano. Aprendi muito cedo todas as regras estabelecidas num pentagrama: compasso, dinâmica, mãos esquerda e direita, leitura antecipada do que vem – para que as mãos já estivessem preparadas quando o próximo sistema musical chegasse, e todas as notas estivessem “debaixo do dedo” –, como sempre dizia minha cruel e adorada professora Dona Ruth. Na minha trajetória musical, não houve espaço para erros, e a disciplina era rigorosíssima.
Nunca me queixei disso e cresci dessa maneira, eu realmente gostava desse rigor. Na faculdade isso não foi diferente. Mas, como tudo tem dois lados, nunca consegui improvisar num showzinho entre amigos, contando coisas corriqueiras da vida.
Cadê a partitura? Minha voz não tá boa hoje! Desafinar no karaokê? Nem se eu quisesse.
Cresci assim, onde o inusitado não cabe. Onde o erro não tem espaço.
*Aqui já começa o inusitado na minha vida. O texto vai continuar semana que vem…
Créditos da imagem: Mona Vilardo.

