Sonoro Calado
Postado no 12 de setembro de 2018 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia.
Vejo quatro cordas,
Quase mortas,
Que não tocam,
Que não falam
Quase nada.
Nem um som, nem uma nota solta,
Ou um semitom.
Tem traços de ferrugem,
Marcas de dedos pelos braços,
Uma boca que não tem lábios,
Um corpo que não dá abraços.
A mão fria, sem calos.
Mas que sente afeto; tem laços.
Segue ali calado,
Sem murmuro, pendurado.
No calor, não senta ao vento;
No inverno, não pede vinho.
É calmo, nunca bravio.
É sozinho…
Esticado, desafinando.
Ao longo tempo passando; empoeirando,
Sem força, sem nota,
Sem vida.
Envergado em solidão,
Transforma todo tom em bemol.
Mas na claridade, faz as pazes, e ainda toca o sol.
(Diogo Verri Garcia, Rio, 09/08/2018)
*Poesia autoral.
Créditos da imagem: pixabay
Escutei Deus sussurrando
Postado no 11 de setembro de 2018 Deixe um comentário
Por: Tadany Cargnin dos Santos
Ontem, em sonho, escutei Deus sussurrando
Segredava sobre a solidão enfadonha do firmamento
Queria ser humano, para andar assobiando, compartilhando e amando
Mas, tristonho, lamentava que estava eternamente condenado ao isolamento
Que o céu era tão pomposo e que as pessoas só ficavam lhe observando
A convidar-lhe para uma festa ou brincadeira, ninguém tinha o atrevimento
Que nem os anjos, eternos companheiros de domicilio, o imaginavam dançando
E que o som de liras e arpas lhe estavam causando um musical esgotamento
Que sentia mágoas de ter sido tão autoritário ao ver Adão e Eva se apaixonando
Pois hoje ele entende, que o amor é a alegoria, o mágico e revelador encantamento
De repente, o sussurro parou, quando o sol estava se levantando
Levantei e olhei pela janela, fiquei alegre pois Deus estava num processo de autoconhecimento.
PS: Para citar este Poema:
Cargnin dos Santos, Tadany.Escutei Deus sussurrando.www.tadany.org®
Sobre Dragões e Insetos
Postado no 9 de setembro de 2018 Deixe um comentário

Por Renato T. de Miguel
Há pouco mais de dez dias assisti pela terceira vez Blade Runner 2049. Esse é um grande filme por diversos motivos, o visual impecável (fotografia, design de produção, efeitos visuais), a história que segue e expande o universo introduzido por Ridley Scott em 1982 e, principalmente, os temas narrativos que nos põem a refletir por horas ou dias depois que descem os créditos.
Um desses temas é a substância da memória.
Em determinada cena, a Dra. Ana Stelline, arquiteta de memórias a serviço da Wallace Corporation, explica ao detetive K. que as lembranças não são feitas de detalhes reais, porque nós as recordamos com os nossos sentimentos. Não nos lembramos de um episódio da infância como ele realmente aconteceu. Lembramo-nos do que sentimos naqueles instantes do passado.
Ontem à noite, ao ler a notícia sobre o incêndio que destruía o Museu Nacional, certa recordação da minha infância se espargiu na minha consciência. Minha mãe uma vez me levou àquele museu. Embora os passeios à Quinta da Boa Vista ocorressem com certa frequência, visitas ao museu ou ao zoológico eram mais difíceis. Mas nesse dia fomos àquele casarão que abrigava antiguidades. Pouco antes eu tinha ouvido que um Rei vivera ali e era fascinante que aquela mansão velha tivesse sido tão importante um dia.
Ao andar pelos corredores, o piso de madeira rangia com um som oco, elevando a tensão que era reforçada a cada descoberta, a cada sala que eu entrava e observava aqueles grandes retângulos de vidro contendo coisas do passado. A sensação era de fascínio diante do poder do tempo: estavam ali fósseis de animais extintos, múmias que foram reis ou governantes no Egito há tantos e tantos séculos. Talvez pela primeira vez na vida as dimensões colossais do tempo e do espaço tenham surgido com um vislumbre diante dos meus olhos. Por óbvio, eu não sabia, mas não seria mais o mesmo no dia seguinte.
Na escola, entre as disciplinas humanas com as quais eu aprendia a ter contado, a história era a preferida. Com o passar dos anos o apreço pelas ciências humanas me conduziu ao curso de Direito, o Direito consolidou o gosto pela leitura e a literatura me ensinou novas coisas sobre as pessoas, sobre o tempo e sobre o próprio mundo. Aquele pequeno episódio do passado, possível e provavelmente, ajudou a moldar meus gostos, minha personalidade e, portanto, minha cadeia de decisões a partir dali.
As formas de conhecimento, por menor que seja o conteúdo que eu pude assimilar ao longo desses 30 anos em que estive vivo, fizeram de mim, creio com sinceridade, um indivíduo melhor – ao menos melhor do que eu seria, acredito firmemente, se nunca tivesse a oportunidade de reunir nenhum. Mas divago…
Se o conhecimento sobre o passado nos ajuda a compreender quem somos, situando-nos no presente, a ação sobre o presente pode moldar o nosso futuro. A evolução da medicina, por exemplo, tende a conferir maior dignidade à nossa existência por um período maior, ao passo que o desenvolvimento das tecnologias, se empregadas construtivamente, pode elevar as nossas condições materiais de subsistência.
A conservação e o progresso do saber devem (ou deveriam) ser um dos pilares da nossa caminhada como espécie.
Em Os Dragões do Éden, Carl Sagan fez uma constatação acachapante: ao condensar toda a história conhecida do universo desde o Big Bang no período de um ano (sendo 1º de janeiro o momento da Grande Explosão e os últimos instantes do dia 31 de dezembro os nossos dias), observou que os dinossauros surgiram na noite de natal e os humanos às 22h30 do último dia do ano. Toda a história humana conhecida ocupa os últimos 10 segundos do dia 31 de dezembro, ao passo que o período decorrido entre a idade média e os dias atuais ocupa pouco mais de 1 segundo.
A nossa existência é sabidamente estreita se comparada à eternidade do cosmos. E precisamente por isso, creio, a propagação e desenvolvimento das formas de saber a respeito de nós e desse mundo em que nascemos é o que de fato pode nos dar algum sentido.
Imagine que as efeméridas, em seu pequeno ciclo de vida que dura apenas poucas horas, tivessem a habilidade de compreender seu lugar e sua função na natureza; e que vão morrer, sim, mas que antes disso vão criar e reproduzir outras vidas, se comprazer com as ofertas da natureza e das relações com seus iguais. Seria inevitável reconhecer a beleza quase poética dessa condição.
Como indivíduos, nossa memória serve pouco ao registro da realidade, pois nossas vidas são microscópicas diante da magnitude do tempo e nossas lembranças são distorcidas pelo caos das nossas emoções.
Como espécie, contudo, nossa breve história é conservada e contada nos museus e bibliotecas ao redor do mundo, enquanto nos laboratórios e universidades – sempre atentos ao que aprendemos até aqui – nossas condições de existência tendem a ser aprimoradas.
É triste e de nenhum exagero constatar que ontem, na sucumbência do Museu Nacional ao calor do incêndio que destruiu cerca de 20 milhões de peças dessa história, a nossa memória coletiva sofreu um dano irreparável. De certa forma, creio eu, nestas horas falhamos em perseguir um sentido a este absurdo que é a nossa vida.
Não fomos capazes de preservar uma casa que sustentou bravamente partes fascinantes da nossa trajetória.
Roguemos para que aqueles que vierem depois de nós tenham mais zelo pelo nossa passado, pela pesquisa e pela ciência, pois são elas que nos auxiliam a solidificar nossa identidade e a construir sentido como seres humanos, bem como a registrar o fato de que estivemos aqui.
Tributo à Legítima Defesa da Classe Média Sonegadora
Postado no 6 de setembro de 2018 Deixe um comentário

Por: Thiago Amério
Dizem que o tributo não é castigo, multa ou sanção.
Mentira, tributação é pena de prisão eterna.
Do parto ao enterro, tudo é “fato gerador”
o Estado quer almoçar, quem come é governador,
o prato é o suor dos outros, o tempero é o seu labor.
União, Estado, DF, e Município,
cada um quer um pedaço,
empanturram o (próprio) governo
e a sobra é dos pobres coitados.
Sobra pagar a conta da fartura,
sobra pagar a conta da fatura,
da escola e do hospital,
duas vezes, ao Estado e ao Liberal.
O primeiro cobra e não oferece.
O segundo oferece a quem pode ($).
O terceiro é a classe média:
trabalha até morrer
ou pra se educar,
ou pra sobreviver .
No Brasil, pra alguns,
sonegação é legítima defesa.
Ps. Não concordo com essa tese
Um erro não justifica o outro.
Mas é difícil defender o Estado.
Neste país ingerido por poucos.
Aquestos Finais.
Postado no 5 de setembro de 2018 Deixe um comentário

Por: Diogo Verri Garcia.
AQUESTOS FINAIS
Oremos
Para que nenhum mal adicional nos apareça;
Para que o improvável venha a nós com sutileza;
Para que, por felicidade, a vida se restabeleça.
Peçamos
Um pouco mais, face ao tanto que a rotina já nos dera;
Um ar mais leve, feito o começo de nossa paquera;
Um beijo de paz, sem dissabor – não um tapa de guerra.
Arrumemos
Um jarro novo, para o lugar do que quebrou por ser lançado;
Taças (em jogo), espatifadas no bar ao lado;
Um meio termo entre o indolente e o esforçado.
Dividimos
Os bons momentos, os juramentos, um pouco de tudo;
O bem maior, muitos prazeres, o nosso mundo;
Promessas feitas, que se perderam em segundos.
Repartiremos
Alguns retratos, outros farrapos, nossos caminhos;
Simples adornos, um só cachorro, o melhor vinho;
A sensação estranha e o prazer feliz de estar sozinho.
Talvez tenhamos:
Daqui a um tempo, versões mais nobres das nossas verdades;
Algumas lembranças das nossas danças, da nossa amizade;
Ao esbarramos, a impressão de que o passado traz saudade.
Merecemos,
Tuas palavras, que foram duras – tais quais as minhas;
O que passou, desde o amor às nossas rinhas,
Dos dias de sóis ao mar escuro que ao fim se tinha;
O que roubou o prazer, fez desgostar de você,
Também me fez merecer.
Além do mais,
Só oremos…
(Diogo Verri Garcia, Rio, 22/08/2018)
*poesia autoral
Créditos da Imagem: Pixabay
Necessito partir
Postado no 4 de setembro de 2018 Deixe um comentário
Por: Tadany Cargnin dos Santos
Necessito partir
Chegar até a estação
Adentrar outro veículo
Ter outras sensações na essência
Ouvir outros sons, sentir outros sabores
Escrever outras histórias, viver outros amores
Cair em outros buracos, sentir outras dores
Ver outras paisagens, cheirar outras flores
Esta cadeia existencial me atormenta
Por sua indecente imensidão
Enclausurado neste corpo que me esquenta
E também neste universo, mesma prisão
Quero abandonar esta família física
Desprender-me de relações efêmeras e tísicas
Cruzar a linha invisível deste manicômio
Torturado por antogônicos deuses e demônios
Ainda tenho que ficar, mas desejo partir
Nauseante dicotomia, sofrível existir
Torturado por compromissos passados, rótulos vencidos
Levado à deriva pela vida, de mim mesmo esquecido
Então, fico aqui pensando na partida
No doce adeus, pois não mais voltarei
Nas luzes que se acendem do outro lado, estação querida
Onde ainda estarei preso, mas quando lá chegar, tudo isto esquecerei.
Para citar este Poema:
Cargnin dos Santos, Tadany. Necessito Partir.www.tadany.org®
Caneta de Carga Acabada
Postado no 31 de agosto de 2018 Deixe um comentário
Por Alvaro Assis

Querida Caneta de Carga Acabada,
Nós que estivemos juntos por tantos e tantos poemas…
Lembro-me até de quando você se esquivou de escrever: obnubilado
Você tinha mesmo razão
Meter obnubilado neste coisa, não tem propósito algum
Sei que muitas e muitas vezes o frio secou sua tinta
E em vez de se esvair em azul, você queria mesmo era o conforto do estojo
Mas eu sempre lhe apresentava um bom motivo…
Como, por exemplo, uns versinhos para amada dormindo
Você bem sabe que a coisa mais bonita do mundo é ver a amada dormindo
E que a segunda coisa mais bonita é ler a ela um poeminha sob medida
Ah! Lembra-se da cerveja alvejando sua veste e eu te enxugando apressado?
Você meio mal humorada e eu só queria saber de fazer letra de samba
Que mulata quando passa quer ser matéria prima de enredo
Querida Amiga de Caligrafia Decorada
Se você fosse uma dessas chiques-douradas eu até lhe tentaria uma recarga
Porém, você é como eu, essa biczinha vulgar com data pra acabar
Mas eu, saudosista com tudo, pego-me a lembrar de tantos versos
Você apertada contra o suor de minhas mãos trêmulas de sonhos
Açoitando a folha de caderno, o guardanapo, a palma da outra mão
E não me venha escrever no celular, ou no tec-tec do computador
Era a mensagem que me vinha do seu pequeno olhinho marinho
Você é severa nesta coisa do fabrico das palavras
Ah! Querida Companheira Acrobata,
Escolher outra de sua marca seria uma traição sem categoria
Seria como cara que casa com a irmã da sua ex-mulher
Sucumbir aos caprichos de uma dessas enfeitadas
Seria dar corda à maledicência do capital
Quem sabe você não se sinta tão magoada
Se eu passar a compor com aquele lapisinho mil vezes apontado
Aquele que te esperava voltar pro estojo (esbaforida)
Só pra te ouvir contar as coisas que nós dois fazíamos
Eu e Você, Querida Caneta de Asas Quebradas.
Promessa (dez)cumprida
Postado no 30 de agosto de 2018 Deixe um comentário
Por: Thiago Amério

Dez mandamentos.
Alguns compromissos. Inúmeras promessas. Mesma conduta. Um grande sentimento: se as pessoas descumprem por que se comprometem?
Mar em Oração
Postado no 29 de agosto de 2018 Deixe um comentário

Por: Diogo Verri Garcia.
MAR EM ORAÇÃO
Seja forte, como o mar é forte,
Mas te amolde e te quebre como as ondas que batem.
Seja leve, como o mar é leve,
Com ondas breves, como as que rompem a tarde.
Seja bravo e te defenda do argumento,
Quanto te calarem o pranto e te pretenderem agonia.
Seja estupendo, feito o mar em tormento,
Se te transgredirem a luz, não permaneças em calmaria.
Veja a onda que explode e prensa o rochedo:
Seja fereza sem raiva; tem equilíbrio, tem paz.
O mar que alimenta e refresca: é servidão sem medo.
O mar que retira, repõe – nas ondas de leva e traz.
E quando o sublime solar pelo céu se exaltar,
Seja como o mar e reflita a luz que lhe toca.
Se acerque dos que te doam a paz sem te cobrar,
Tal qual um corpo de água salgada,
Que se cerca de terras nas bordas.
Mas se o céu te parecer mais cinza,
Não o espelhes na dúvida, olhe para o mais profundo de ti.
Não te tornes pedante, descrente ou ranzinza.
E te acalme: contenha-te do furor, do desamor, do frenesi.
Seja leve, como o mar é leve.
Feito as águas que chacoalham ao vento,
E que repousam tão logo a brisa pausar.
Trazem paz alheia ao amalgamento.
Seguem mansas e resilientes.
Sem apatia, são benevolentes.
Fortes e calmas, bem sabem:
Tudo tem o seu tempo.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 16/08/18).
*poesia autoral.
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Créditos da imagem: Disponível em: < https://pixabay.com >. Acesso em: ago. 2018.
Viagem ao mundo dela
Postado no 28 de agosto de 2018 Deixe um comentário
Por: Tadany Cargnin dos Santos
Ela me convidou para viajar
Uma viagem ao desconhecido
Ao forâneo mundo de sua essência
Convite especial, preencheu minhas carências
Ela queria aventuras, revelar-se paulatinamente
Talvez encontrar-se, sem saber quem era
Aceitei afoito, excitação resplandecente
E a viagem iniciou, vindoura quimera
Nas montanhas de tua desesperança
Encontrei feridas que não queriam sarar
Nos vales de tua desconfiança
Encontrei amor parcelado, medo de se entregar
Quando cheguei no córrego de teus prazeres
Senti as delícias da humana paixão
E no amanhecer de teus afazeres
Observei as lágrimas de tua delilusão
No jardim de tuas fantasias
Encontrei raras flores de transcendência
No entardecer de tuas regalias
Vi cores vibrantes, horizontes em ascendência
No oráculo de teus anseios
Descobri íntimos desejos de união
Na escura caverna de teus receios
Encontrei monstros de uma antiga paixão
E a viagem seguiu, ela contente e inspirada
E eu, cada vez menos curioso, cada dia mais calado
Pois tenho pânico de sendas unidirecionadas
Mesmo que por isso seja, somente pela solidão, amado.
(Tadany – 03 01 15)
Para citar este Poema:
Cargnin dos Santos, Tadany. Viagem ao Mundo Dela.www.tadany.org®




