GRÃO E MIGALHAS

Por: Diogo Verri Garcia

GRÃO E MIGALHAS (#repost)

Por vezes, insistem em dar migalhas,
Enquanto minha mente anda morta de fome.
Fome por fome, estou acostumado,
Mas não acho engraçado não saber ler meu nome.

Parece até princípio de fim.
Meio de vida é qualquer um, afinal.
E se não acho um caminho certo para mim,
O fim, no início, é normal.

Há quem diga que é um direito o estudo,
Mas na vida só conto mesmo com a sorte.
Se há equidade no mundo? Não creio.
Somos iguais só na hora da morte.

E para quê me falar de educação,
Se cultura, aqui, só se conhece de retrato?
Não dá não, doutor! Isso é pra filho de patrão.
E como comprar livro, se mal consigo ter um prato?

Começo a achar que estudo é pra quem pode.
Sigo sem vida, sem letras, sem saber.
Não sei se é culpa de Deus, do mundo, da sorte,
Ou se é só minha, por não saber ler.

Prevejo piada em querer diploma em moldura,
Porque para mim já é muito ter nada.
Se alguém nos desse algo mais de cultura,
Deixava de vez o cabo da enxada.

Mas tem moço que parece não ver.
Saber, até sabe, mas finge que não.
No fim, para os nossos, farelo.
Para eles, fartura e quinhão.

Mas de que me adianta farelo sem grão?
Moço, dê-me uma escola,
Que lá eu aprendo. E então faço meu pão.

(Diogo Verri Garcia)

(Publicado em Poesias Brasileiras. 3. ed. São José do Rio Preto: THS Arantes Editora, 2006)

*Publicado no Literarte em 01 de agosto de 2018.


Créditos da imagem: pixabay

Bússola

Por: Bianca Latini

Bússola

A gente olha, mas não vê
Vê, mas não enxerga
Daí quando enxerga, não sente
E enquanto não sente, a gente mente
Pra gente mesmo
Consequentemente, para todos a nossa volta
Para sustentar toda essa rede de mentiras
A gente se veste, se fantasia, se esconde,
se soterra, se emperra, se entrava,
se esquece, adormece, esmorece…
Se perde e depois não se acha
Não se encontra
Não vê graça na vida, nem colorido nos sorrisos
Não vê sentido em existir e se pergunta: “o que tô fazendo aqui?”
Daí,ou a gente afunda nesse vazio, nesse abismo, nessa cratera sem fundo,
Ou tenta resgatar o prumo
Entender onde foi que errou na mão
Que ingrediente da receita foi exagerado, ausente ou insuficiente
Nessa busca recapitulativa, a gente volta às pistas, às setas, às placas, aos semáforos, às lombadas, aos faróis de neblina, aos cruzamentos, aos avisos de pista escorregadia e de curva perigosa, aos alertas de falta de óleo, gasolina e, principalmente, de descarregamento de bateria
É nesse momento, ao soar da lembrança do perigo, que sempre esteve nessa viagem, que a gente recorda do que passou despercebido
Por excesso de velocidade, falta de atenção, de verdade
É aí que a gente pisa no freio e
decide escutar a maior bússola veicular humana: coração
Dá meia volta e retorna exatamente para o lugar de onde se veio.

Minha filha, meu cais, meu leme.

Por: Priscila Menino

Minha filha, meu cais, meu leme.

Se eu pudesse, eu te colocaria em um potinho e te manteria sempre perto de mim.
Se fosse possível, eu te protegeria de todas as dores e viveria cada uma delas no seu lugar.
Eu evitaria a todo custo a fase que podem ter embates duros entre nós duas por exigir que você faça suas obrigações.
Quisera eu que você permita que eu te leve e te busque na escola para sempre, te abraçando e beijando, mesmo estando em frente aos amigos.
Ah, se eu tivesse a opção de permitir que eu compre suas roupas, vista seus sapatos e escolha seu penteado e perfume.
Mas, se assim for, você não se tornará a mulher que eu imagino que será, afinal, cada um tem seu caminho, suas escolhas e as consequências das ações ou das omissões, é inevitável.
E assim, eu sei que não posso evitar que você sofra, eu não posso impedir que sinta medos, inseguranças e viva eventuais dramas, não posso avocar todos os seus problemas e inquietações. Mas eu posso te garantir que em todo e qualquer momento, eu estarei ao seu lado.
Você vai velejar seu caminho, viver suas tempestades e aproveitar a brisa leve da maresia de um dia ensolarado, mas eu serei sempre seu cais, estarei sempre aqui, sendo o lugar seguro para você atracar, pra cuidar do seu casco, fazer eventuais remendos que eu conseguir e te ver seguindo seu caminho de novo e de novo e de novo.
Dizem que a gente cria filho pro mundo, eu prefiro dizer que eu te crio para o universo inteiro de possibilidades, pois, minha menina, você pode ser o que quiser!
Ora, na contrapartida, é você que cria em mim um desejo constante de ser o meu melhor, de mostrar pra você como podemos ser felizes com a simplicidade, mesmo em meio a ondas de um mar agitado.
Mal você sabe, mas é você o leme da minha vida, traçando juntas sempre a direção seguida na nossa evolução constante.

VAI, RAPAZ! (#repost)

Por: Diogo Verri Garcia

VAI, RAPAZ! (#repost)

Te disseram que o tempo é morada,
Caminho para todos que sofrem.
Te falaram que a vontade ficou endividada.
E com dúvida, se se entrega ou se corre.

Veja que ela também quer os teus olhos,
Mas teme do mundo a reprovação.
Nota que face à tua galhardia,
Ela também se arrepia, tem taquicardia, muda a respiração.

O que adianta se só vês essa tal menina,
Se é outra que – mesmo tu não querendo – tanto te quer que te beija?
Vai, rapaz! Rompe logo essa sina,
Ou te dedica de vez a quem também te deseja.

Quem te fala é quem tem vivência,
Porque coerência não é o dom da tua idade.
Vai, rapaz! Roube logo dela um beijo,
Que ela larga o mundo e passa a ser tua!
E esqueça o resto, pois nada mais te importa,
Desde que passastes por ela, ao acaso, na rua.

Ou então te cala e cultives a moça
Que te vê com vontade e quer te ter por rapaz.
E espere que os olhos mais belos te esqueçam,
E que vocês dois não se encontrem jamais.

Vai, rapaz! Saudade perdura!
Mesmo que sejas forte, isso machuca e adoece.
Vai rapaz, liga logo para ela.
Se não o fizeres, se arrependa, e não haverá santo, nem prece…

Dedico a ti um conselho: confie no instinto,
Mesmo que seja confusa e irracional a razão.
Pegue pra ti! Toma logo essa moça
Que te embaralha os pés, te aquece o corpo e te dá emoção.

Vai, rapaz! Amor só se tem um na vida,
E o tempo para outros é abismo e cilada.
Sou eu teu espelho, e cá venho te avisar:
Fica com ela, serás feliz, e mais nada.

Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 25/07/2018
*publicado originalmente em 25/07/2018


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Ao fogo, água!

Por: Bianca Latini

Ao fogo, água!

Queria que um dilúvio caísse e lavasse as mentes incendiárias
Que inundasse toda destemperança e falta de senso de pertencimento
Que encharcasse os corações ocos
E levasse com toda força d’água
A ignorância e a maldade
O vazio de ética e de consciência planetária
Será mesmo que eles acham que somos coisas distintas??
Eles, nós e a natureza??
Queria que a correnteza arrastasse a desumanidade, o pensamento egoísta, a ganância, o atrevimento em querer extirpar o que não se terá conserto, remédio ou qualquer remendo
Queria, também, que não diluísse o gosto de fel na boca dos que hoje profanam e queimam o que há de mais belo e sagrado
Pois eles, certamente, colherão o gosto amargo de viver no deserto
Eles podem não se dar conta e nem fazer correlações
Mas, daqui a algum tempo, tentarão sobreviver com a semeadura de sua insanidade vermelha e devastadora
E não conseguirão, nem mesmo, chorar o dilúvio que não os lavou.

Des-EAT-se

Por: Raquel Alves Tobias

Des-EAT-se

Apesar da sede
Apesar da fome
Apesar da angústia
De quem se come

Apesar do freio
Apesar do medo
Apesar do cheio
Parido do ontem

Não se pode numerar
Incontáveis toneladas
Que definem o apesar

Pois no dedo ficará
O desejo que na ponta
Gostaria de pesar

Apesar deles
Apesar de tudo
Precisamos ser nós
Que desatam

Desate-se.
Des-EAT-se.

Super-heróis das rotinas

Por: Priscila Menino

Super-heróis das rotinas

Quem é que nunca perdeu o controle, ao ponto de sentir a iminência de uma explosão interna?
Quando pequena, eu sentia uma pequena inveja e admiração do Incrível Huck, imagina só que maravilha ganhar força sobre-humana quando estivesse com raiva, ficar com uma tonalidade atípica de um brócolis maduro e deixar evidente para quem está próximo que aquele não é um momento propício para se manter por perto.
Nesses momentos de perda de controle, eu só queria mesmo ter um superpoder de correr o mais rápido possível, ao ponto de ultrapassar o Flash e me refugiar em uma ilha secreta da Marvel, onde ninguém pudesse me importunar e nem me encher de mais preocupações, eu deitaria ali, tomaria um agradável sol solitário, observando os pássaros, manteria a frequência da respiração e, evidentemente, eu usaria meus músculos bem definidos para abrir uma água de coco e me deliciar com a paz do barulho das ondas.
Acontece que a gente tem que voltar para a realidade, onde a raiva, a perda de controle, as preocupações, as dores e os dissabores não fogem e não há um alerta amarelo de estafa que informe que há um colapso psicológico próximo de acontecer (desculpe Huck, mas verde não integra minha melhor paleta de cores).
Então me deito em minha cama, afofo meus travesseiros, beijo o rosto de minha filha já entregue a um inocente sono, seguro as mãos do meu super esposo, pego aquele livro que irei finalizar a leitura hoje e vejo que sobrevivi a mais um dia, a mais uma semana e a uma vida inteira tipicamente humana, com meus rebolados diários e a força de uma mulher maravilha que habita em mim.
Ah, percebo então que não tenho olhares biônicos; não tenho músculos definidos como uma pedra; não corro mais do que 10 km/h; mas tenho minha escrita para levar esperança e eternizar meus pensamentos; tenho meu sorriso para ser gentil com quem eu encontrar no meu caminho e ser uma kriptonita contra energias negativas; tenho o carinho do meu parceiro de aventuras e tenho o abraço da minha filha para ser meu anel de poder.
Sou uma humana cheia de super-defeitos, mas, parando para pensar, talvez isso que me permite ser a mulher maravilha que ganha diariamente milhares de batalhas que o Huck com aquela força toda, jamais conseguiria. Uma salva de palmas para todas os super-heróis e super-heroínas da vida real!


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Descredenciado Poeta (#repost)

Por: Diogo Verri Garcia

Descredenciado Poeta (#repost)

A poesia, quando sai do poeta,
É livre, sem responsabilidade.
Quem assume seu próprio risco é o leitor
Que lê o que quer, adota suas próprias verdades.

Descredencia cada palavra dita,
Que não pertence mais a quem as fez.
Os prantos podem se tornar sorrisos;
Os risos, desatar de vez.

As saudades, que eram felizes em mesa de chope,
Lembram palavras tristes, ofensivas e torpes.
A dor, que quem escreveu quis contar,
Pode virar samba de Chico, ao som de “Vai passar”.

A poesia, quando ab-roga seu dono,
É livre, nunca será de mais ninguém.
É feito o amor que traz ao mesmo tempo beijo e abandono:
Ama instantes a ti, ama logo mais outro alguém.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 11/08/2018)

*publicado originalmente em 22 de agosto de 2018


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Eco

Por: Bianca Latini

O outro é um espelho da gente
Uma extensão
E para ser mais preciso
A mesma coisa
Uma unidade
O outro somos nós
Como queres ser tratado?
Queres ser amado?
Respeitado?
Compreendido?
Perdoado?
Queres ter paz?
Leveza?
Alegria?
Queres a felicidade?
O que tens semeado?
Que sons saem de tua boca?
Em que ritmo são lançadas tuas palavras para o exterior da tua casa?
Quais as tuas reais intenções quando acaricia teu semelhante com um conselho?
Pões veludo aparando tuas críticas?
Por que as faz, de fato?
O que há por trás do teu véu?
Por debaixo da tua máscara?
Rei, Rainha, majestade
Cara, coroa
Leitão, leitoa
Quem tu és de verdade??

Pontos de vista

Por: Priscila Menino

Pontos de vista

E eu passava todos os dias pelo mesmo local, quase nos mesmos horários, como um ritual em um looping diário.
Certo dia, após um retiro quase sabático de uma pandemia que a obrigou a permanecer em casa, retomou o caminho.
Surpresa! Notou as árvores que dançavam no ritmo imposto pelo vento, deixando rastros de flores no chão, tal como um registro colorido de flores de ipê saudando o dia.
Notou ainda a coreografia dos pássaros que faziam uma sinfonia de sons, até então tão imperceptíveis.
Ah, e o céu? Um show a parte se fez em meio a nuvens bailadas pela valsa da imensidão azul celeste.
Foi então que percebeu o quanto o modo automático do dia a dia a fazia esquecer dos pormenores, daqueles pequenos detalhes que pareciam apenas um cenário do caos constante da correria urbana.
Agora ela sentia que tudo sempre estava ali, bastava saber notar, enxergar, sentir e absorver aqueles pequenos-grandes detalhes de uma rotina constante e impressionantemente bela.
Passou então a ver, em meio ao caos, a beleza e felicidade daqueles momentos tão significativos.


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