A Semente que Não Quer ser Árvore

Por: Mauricio Luz

A Semente que Não Quer ser Árvore

Amor, Amor,
Que grande mistério Você é!
Todos queremos alcançá-Lo, Amor.
E por isto O rotulamos, classificamos,
Medimos e pesamos,
Avaliamos, certificamos
E chamamos de oceano
A água do mar que colocamos em um copo.
Amor, Amor!
Quando aprenderemos
Que Você não tem condições, não tem fronteiras?
Que Você é a dança e a música?
Quando perderemos o medo de abraçar-Lhe,
E assim descobriremos a profundidade de nosso próprio abraço?
Quando perceberemos que a brutalidade nada mais é que a sua ausência?
Ah, Amor, Amor!
Me desculpe!
Convida-me a ir à sua Casa,
Comer seu pão e beber seu vinho,
Mas eu carrego tanta coisa!
Como poderei passar pela porta?
Carrego a casa, o carro, as contas,
A necessidade de ser aceito e amado,
A raiva daqueles que são diferentes de mim.
Carrego tudo o que me disseram que era para ser ou fazer,
Até aquilo que acredito que é você, Amor!
E Você quer que eu me dispa completamente,
E desnudo e entregue,
Una-me a Você nos mistérios da vida?
Ah, Amor, Amor!
Você me pede tudo, e é tão pouco!
Eu carrego tanta coisa.
Eu me tornei estas coisas.
E a elas eu pertenço, mais do que elas pertencem a mim.
Por isto, Ó Amor,
Rega-me com Sua água cristalina,
Mas a casca que eu mesmo formei,
Impede-me de nascer;
A semente que não quer ser árvore.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

De Camaleoa para Leoa

Por: Juliana Latini

De Camaleoa para leoa

Assim como no mundo animal, existe a possibilidade de se camuflar.
A camuflagem é uma estratégia de sobrevivência, de se disfarçar e passar desapercebido em um meio.
Essa forma de agir é uma defesa, mas não somente em função de uma ameaça externa. Para mim, era também um lugar que permitia repousar pensamentos distorcidos sobre mim mesma.
Fazendo com que no exterior, eu transparecesse algo que de fato não era. Com o simples objetivo de não ser notada.
Ao perceber esse equívoco, despertei!
As cores pálidas do meu ser foram ganhando vivacidade.
Eu comecei a aparecer, a me expressar como ser único que sou.
Ah, quanto tempo eu perdi com esses falsos pensamentos que só se alimentavam de insegurança.
Pensamentos de comparação não são mais bem vindos nessa nova condição!
Agora, quanto mais me conecto comigo mesma e supero os medos de me expor, apresento para o mundo o meu colorido único.
Com o alerta para não voltar ao padrão antigo de buscar aceitação alheia.
Ao sair do modo sobrevivência, percebi quanta energia eu dispendia buscando aparentar algo.
Passei a canalizar toda essa energia vital em simplesmente ser.
Naturalmente, cores vivas começaram a brotar em mim!
Uau! Sinto-me explorando novos espaços e me expandindo, até que me deparo com o colorido da criança que eu fui. Acrescento a sabedoria do equilíbrio e sigo com alegria, coragem e cabeça erguida.
Deixando de agir como uma camaleoa, me vejo como leoa.

Juliana Latini


Créditos da imagem: Pixabay

Por: Raquel Alves Tobias

Certas coisas levam tempo
Sentimentos só querem ser
A grama convida deitar
O céu a se perder

Preciso de espaço para ver
As forças tem o que recebem
Se nada têm, sempre cedem
A quem as queira preencher

Não é confortável, nem um pouco
Há pêlos na laringe,
Pressão nos antebraços,
Isquemia pelo corpo

Contração defensiva
Cegueira reflexiva
E tudo que ela queria
Era dançar por entre as tranças

Balançar, como o vento balança
a gramínea
ao sol de meio-dia
em suaves redemoinhos refrescantes.

Fluir como água na fonte
Beber o sangue da terra
E fertilizar

Ouvir o som da vida
E soltar
Sem nenhuma procura
Apenas, ficar.

Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Pixabay

Clássicos da Literatura: Franz Kafka

A Metamorfose

Quando­ certa­ manhã­ Gregor­ Samsa­ acordou­ de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama meta­morfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre­ suas costas­ duras­ como coura­ça­ e, ao levan­tar­ um pouco­ a cabe­ça,­ viu seu ventre­ abaula­do,­ marrom,­ divi­di­do­ por nervu­ras­ arquea­das,­ no topo do qual a cober­ta,­ prestes­ a desli­zar­ de vez, ainda­ mal se susti­­nha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremu­lavam desamparadas diante dos seus olhos. – O que aconte­ceu­ comi­go?­ – pensou­. […]
(Primeira frase do conto A Metamorfose, de Franz Kafka)


Créditos da imagem: Pixabay

A morte

Por: Bianca Latini

A morte

Tão temida…
Tão proibida…
Seu nome desperta calafrios
Sua ocorrência, desespero, sentimento de despenhadeiro
O que se perdeu, o que não volta mais
O desconhecido…
O arrependimento daquele que ficou, pelo que não se fez, não se disse, não se doou, não
acolheu
Parece uma ida para um lugar de não encontro
Como se quem partiu virasse alma penada, isolada, sentenciada
E quem ficou permanecesse no boeiro do inconsolação, vale do vespeiro, finitude, derradeiro

Imutabilidade, saudade, misto de lembrança e remorso
Preenchimento e vazio
Era, foi, não está mais, pra onde foi, onde estará? E eu? Como será? Não hei de
aguentar…difícil demais…sem ar…irei sufocar…

Mas não!
Te asseguro que este lugar aqui foi feito para respirar
Inspirar
Transpirar
Transmutar
Ultrapassar
Resignificar
Desmistificar
Despir
Aprender a confiar
No sentido da vida
Na grandeza da existência, além do corpo
Entender que a energia jamais morre
O sentimento genuíno jamais perece
As lembranças não podem ser cremadas
E a essência vital impassível de sepultamento
Assim, desfaz o tormento
Não é um ponto final
É apenas um sobrestamento
do encontro em matéria
A energia nunca deixa de pulsar
Não há com o que se desesperar
Flua e encontre todos os dias o ser querido, que você achava ter perdido para sempre..

O amor não morre, ele apenas se transforma.

Por Bianca Latini Em 20/06/21


Créditos da imagem: Pixabay

Estratégia

Por: Mauricio Luz

Estratégia

Sonhar para um milhão de amanhãs
Planejar para dez mil amanhãs
Estudar para mil amanhãs
Agir para todos os amanhãs
Amar como se não houvesse amanhã

Mauricio Luz


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Discrição

Por: Diogo Verri Garcia

Discrição

Se é pra pensar, e pensando,
falar.
Prefiro acabar-me em silêncio.
Que, assim, silenciosamente sinto,
Das dores minhas só, minto,
e faço o meu próprio compêndio.

Pois pra poder falar, tenho a certeza
Que a leitura é só minha.
E cada página virada,
Haja tristeza ou beleza,
uma ou outra haverá,
apenas comigo,
sozinha.

Mas se tiver de falar,
Só por falar,
Em tua cobrança.
Alerto ser melhor minha abstenção.
Que há palavras
a machucar,
dada a grande inconstância.
Assim, prefiro manter discrição

Da saudade que partiu,
e me sorriu.
Deixou lembrança e a deixei,
Pois não chorei,
Mas nem assim me deixou.
Porque somente agora percebi
Que não sorri.
E da saudade, até você me lembrou.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 28/03/2021)


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Aperte o play, viva!

Por: Priscila Menino

Aperte o play, viva!

Ali estava ela, com o controle na mão, o braço esticado e pronta para apertar o play.
Mas faltava algo, não conseguia ir em frente, a tela estava pronta, mas ela não.
“Era só apertar um botão”, eles diziam, não entendiam a hesitação repentina.
“Cadê aquela coragem?” “Cadê a força de vontade?”, eram tantas conversas paralelas e desconexas, mas ela não queria dar atenção, afinal, eles não sabiam o turbilhão de pensamentos em explosões colidindo na cabeça dela.
Dar um play na vida e se permitir viver demanda não só coragem, mas é quase que um ato de fé e ela já não sabia mais se estava pronta ou não, não queria ter que lidar com tantas variáveis, queria a falsa sensação de segurança da estabilidade.
De repente, cerrou os olhos, mordeu os lábios, contou até três e apertou aquele botão vermelho, era hora de se permitir sentir, de buscar as tantas possibilidades possíveis.
Ela não sabia o que o destino traria, evidentemente tinha seus medos e monstros, mas confiou que viver e sair do estado de pause era mais do que necessário.
A tela se iluminou, o filme da vida recomeçou. Ela apertou o play, reviveu, vai valer a pena, eu asseguro!

Por: Priscila Menino


Créditos da imagem: Pixabay

Insaciáveis

Por: Bianca Latini

Insaciáveis

A gente está sempre achando que precisa um pouco mais
Mais um curso, mais um saber, mais muitos passos pra se conhecer
Mais uma formação, mais um diploma, mais um idioma
Mais um certificado, mais uma transferência de conhecimento
Uma palestra, um workshop, uma especialização
Mais, mais, mais…
Viramos obesos mentais!
Retemos e não absorvemos
Damos input, mas não fazemos refresh
Não ruminamos
E depois…se não digerimos, regurgitamos
Acabamos escravos de uma percepção equivocada de que ainda falta um longo caminho a percorrer, de que o alimento não saciou
E que ainda é preciso beber e comer
Mas não!
Estamos errados, cegos, desconectados
Já está tudo aqui
Sempre esteve
Desde o dia em que estreamos
Por muitas eras
Uma semente idosa
De onde sempre brota um broto novo
A oportunidade da vida
As lembranças esquecidas
Basta sentir para recordar
Apenas fechar os olhos e deixar vir
Tudo aquilo que sempre esteve aqui
Jaz
Refaz
Reconta
E adormece
Nos braços da serenitude
Acorda no orvalho
Deixa as gotículas despertarem teu ser
E vivificarem em ti o que te trouxe a esta viagem

Por Bianca Latini
Em 05/06/21


Créditos da imagem: Pixabay

Concentração

Por: Mauricio Luz

Concentração

Por favor, não me incomode
Agora estou em meu mundo
Construindo outros mundos
Estou desperto, não me acorde

Pois dos Universos que crio e criei
Há infinitos pedaços de mim
Que as palavras que tranço e trancei
Levam a lugares sem fim

E se minha imaginação não faz
Se o meu fazer não imagina
Fico como planta que jaz
Sem semente, e não germina

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay