Postado no 2 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Um ruído silencioso envolve a sala. O controle espera sobre a mesa pela mão que irá mudar de canal.
As histórias de hoje do velho BUK lembram as feiras da semana, uma repetição cíclica desinteressante. O sol brilha na almofada da poltrona em forma de ondas, desenhando a cobertura metálica da garagem. Lentamente o dourado ergue-se com o pôr do sol. Há gritos vindos da TV do outro lado.
Na pele corre uma minúscula formiga foragida das entranhas infantis e doces do sofá. Soltou-se da trama tecidual densa onde alimentava-se de migalhas. Seu caminhar exploratório acabou findando em sua morte. Brava criatura.
Dois quadros geminados de halo dourado expõem labirintos vagos.
E em meio a toda descrição, emerge o indiscreto pensamento que me leva até você.
Assim como todos os caminhos.
Assim como toda a espera.
E entre todos os por ques oscilam o sono e a queimação.
Contradições ácidas.
Seria o amor uma dor epigástrica?
Uma úlcera nascida de corrosão estática?
De quem procura e nunca acha?
De quem dorme para que não arda?
Pois queimar leva à alma,
E a conexão, à frustração.
Então, levanta fumaça!
Coração em combustão…
Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Pixabay
Leitor Também Escreve: Gabriela Vieira
Postado no 1 de junho de 2021 Deixe um comentário

Este não é o fim!
Comece um novo capítulo
Vire a página quando precisar
Volte para reler aquilo que te fez bem.
Deixe as páginas passarem
Boas ou ruins
Elas fizeram você chegar até aqui.
Transforme as páginas
Uma de cada vez
E deixe elas te transformarem.
Há muitas páginas em branco por aí
Só esperando por você
Para ganharem cor.
Gabriela Vieira
Créditos da imagem: Unsplash
Frestas
Postado no 31 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Frestas
Cria espaço
Deixa a luz entrar
Desengaveta
Desentope
Desobstrui
Faz túnel
Local de passagem
Deixa dissolver a miragem
Permite escoar
Libera
Que volte o que tiver de voltar
Apenas…
Não se apegue ao conceito
À muralha
À argamassa
À carcaça
Ao invólucro pré-concebido
Deixa vir a libido
Por tudo que é do jeito que é
Como chega
Como parte
Como renasce
Como recria, reconta, desmistifica
Apenas…
Deixa a luz entrar
Permite ventilar
Refresca
Desaquece, sem perder calor
Fica com o Amor
Sem querê-lo numa gaiola
Rebola, desembola e deixa o novelo correr
O quanto quiser
Até cansar
Apenas…
Por Bianca Latini
Em 30/05/21
Créditos da imagem: Pinterest
Pequeno detalhe pequeno
Postado no 28 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

Pequeno detalhe pequeno
O que é o gostar de alguém,
senão um pequeno detalhe pequeno.
Que é detalhe, posto que embaraça
e resseca a boca, de súbito,
mesmo quando a dose é pouca,
age feito veneno; é sentimento.
Tem jeito pequeno…
por não saber sequer descrever
o porquê de tender,
do começar a gostar.
Sei que há uma certa redundância.
Ou arrogância a definir o amor, em detalhes.
A atrofia que à gramática traz
é a mesma que o amor importa:
não tem razão,
mas soa bem e faz sentido.
Chegamos até
a caçoar do que nos ouvem
nossos próprios ouvidos,
Um dentre tantos entretidos
Em nosso corpo ansioso,
ao aguardar o soar na porta.
Que é o amor, senão a não explicação,
o excesso de catarse.
a emulsão de uma catálise
que nos faz recorrer à análise para, óbvia, explicar
Que é só um pequeno detalhe pequeno.
É o olhar de um jeito ou o defeito,
A forma pela qual nos põe desmedidos.
O que nos faz mais desprecavidos
E nos torna tão dispostos;
bem expostos, como se a razão ficasse em coma.
É o sintoma…
que se encontra em nós,
De modo que, em um querer inconsciente,
(não) precisamos desvendar
a razão de amar,
pois pouco importa…
Em pormenores, é tudo só
Um pequeno detalhe pequeno.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 21/01/2021)
Créditos da imagem: Pixabay
A linha tênue entre empenho e abusividade
Postado no 26 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

A linha tênue entre empenho e abusividade
Li uma matéria da BBC que contava que uma artista plástica chamada Gillian Genser levou 15 anos pra finalizar uma escultura chamada de “Adão”.
Na obra, ela usava conhas de mexilhões azuis lindas, que julgou ser um material excelente e apropriado para se trabalhar.
Insistentemente, ela sentia dores de cabeça e náuseas, mas ainda assim persistia em finalizar sua obra.
Não podia acreditar que, coincidentemente, a sua doença inexplicavelmente “auto imune” teria iniciado no mesmo período que iniciara a sua obra prima.
Não percebeu que a obra levou anos de vida vital, pois estava a envenenando em decorrência do acúmulo de metais pesados presentes nos insumos que usava na escultura, pois estava muito engajada em finalizar aquele trabalho iniciado.
Refleti então em quantos Adãos há nas nossas vidas sem que percebamos?
Quanto espaço damos para coisas tóxicas que nos deixam levar a vida sem que tomemos coincidência disso?
As vezes a linha entre empenho e abusividade é muito tênue e nos deixa meio perdidos, como se estivéssemos fora de nós mesmos.
Por isso é preciso estarmos atentos a pequenos grandes detalhes, se há algo que tira a nossa paz, não é saudável.
Cuidemos antes que levemos 15 anos para perceber o quanto a vida se esvaiu.
Se precisar, busquemos ajuda, mas, de maneira alguma, de jeito algum, deixe que nada leve a energia vital tão relevante pra viver na plenitude mais elevada.
Por Priscila Menino
Créditos da imagem: Unsplash
Leitor Também Escreve: Daniela Ivo
Postado no 25 de maio de 2021 Deixe um comentário

Inteira
Abracei amigos o mais forte que eu pude
Outros
deixei de abraçar
Chorei muitas vezes
Outras
deixei de me emocionar
Ainda me afeto por lembranças e pelo que
Meus sentidos me despertam
Senti muito
Mais por mim que pelo outro
Desconectei
do que não era parte de mim
Me religuei
ao que sempre foi minha base
Experimentei prazeres diferentes
E me permiti não medir
Mas entendi
o que cabe ou não aqui
Pois encontrei a medida de mim
Aprendi a ficar
quando acho encanto
E a me afastar
quando há desencontro
Sou toda
Enfim
Daniela Ivo
Créditos da imagem: Unsplash
Rasgando-me em verdades
Postado no 24 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Rasgando-me em verdades
Sei que posso ir mais fundo
Bem mais imersa que o raso
Bem mais comprometida que o acaso
Bem mais latente
Menos adjacente
Não encaixar-me em sobressalente
Fincada com dois pés, duas mãos e o corpo inteiro
De alma flamejante
De peito escancarado
Talentos expostos, desafiantes, sem medo de serem julgados
Sem pudor de os verem sobrepujados
Métricas, esmeros….que se danem!
Eu quero ser feliz, livre, alada, enlouquecida, enluarada
Tarada pela vida e por ser eu mesma
Sem eira, nem beira
Perdendo todas as estribeiras
Perdendo o juízo, o senso, soltando o freio
Sendo ridícula à vontade
E dê-me licença para ser o que me der na telha, ok?!
Eu vou é matar a saudade de vestir a pele da autenticidade.
Por Bianca Latini
Em 31/12/2020
Créditos da imagem: Google Imagens – Inside São Paulo – Escultura de Ivaldi Granato)
Poesia da Vida
Postado no 22 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Poesia da Vida
Como a fonte de água pura
Que rompe a aridez do deserto
Brota em mim a poesia
Às vezes em pequenas gotas
Às vezes em torrentes incontroláveis
Sempre saciando a minha sede de profundidade
Perdido que fico nas areias do tempo
Atento ao que distrai e não ao que realmente importa
Versos encontrados em pensamentos perdidos
Fugazes momentos que se tornam eternos
Ao ter sua beleza sentida e não compreendida
A poesia me mostra em versos desordenados
O que não pode ser visto por estar
Com os olhos abertos demais
Descreve o que está além das palavras,
Crônicas sem tempo que transmutam
O fel da rotina sem sentido
No mel que adoça a alegria
De consciência da poesia da vida
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
Abacateiro
Postado no 21 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Juliana Latini

Abacateiro
Casei. Mudei. Ganhei um jardim.
Plantamos a primeira árvore.
Um abacateiro.
O solo era pobre e duro.
O abacateiro, frágil.
Ele foi crescendo com dificuldade.
Superando cada vendaval.
Tinha dias que ele balançava tanto que eu até ficava preocupada.
Mas ele sempre resistia.
Um dia, enquanto chorava – com dores de crescimento – pensei:
Seja forte como o abacateiro.
No dia seguinte, ao acordar fui ao quintal, como de costume.
Para minha surpresa, o abacateiro tinha tombado. Foi neste momento que compreendi sem explicações a relação entre nós dois: eu e o abacateiro.
Colocamos uma estaca nele. Aos poucos, superou e se firmou novamente.
Hoje, olho para o abacateiro. De pé. Com folhas secas que caem, caem…
Enquanto varro o quintal, sinto-me enxugando suas lágrimas.
Não sei se chegou o seu fim – sei que está seca.
Ouvi da vizinha que a árvore está morta.
Eu ainda aguardo reação, enquanto varro, varro..
Sei que já deu frutos. Duas vezes!
Olho para ela com a esperança de ver um sinal de vida, um brotinho verde, um respiro.
Mas ainda nada.
Não sei como dizer para ela, você é importante. Fique mais comigo.
Do outro lado, penso – Se ela está assim, como estou? O que passas comigo?
Penso e falo para mim mesma: Você é importante – esteja presente aqui comigo. Ainda que doa, preciso de você aqui.
Juliana Latini
Créditos da imagem: Unsplash
Goteira
Postado no 19 de maio de 2021 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Goteira
Pára e escuta
A gota e o som
Membrana que rompe
A gota e o som
Respinga, se espalha
A gota e o som
Atinge e escorre
A gota e o som
Respira e acalma
A gota e o som
O vento que toca
A gota e o som
O frio na carne
A gota e o som
O toque na alma
A gota e o som
A pressa da mente
A gota e o som
O filme da vida
A gota e o som
Encobre o vazio
A gota e o som
Descobre o amor
A gota e o som
E tudo se molha
A gota e o som
Se enche, transborda
A gota e o som
E logo se sabe
Sua velocidade
Você tem o dom
Da onda de vida
Da gota e o som
Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Pixabay
