Alegria de Viver
Postado no 17 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Juliana Latini

Alegria de Viver
O tempo do relógio, com a sua espiral, determina o nosso ritmo.
Acelera-nos e nos faz correr.
Gira como uma máquina espremedora, enquanto nos vemos sugados, sem energia, sem força, sem criatividade.
Corro o risco de viver no automático e andar como uma sonâmbula pelas ruas.
Preciso de um despertador que me lembre o tempo da minha natureza interior, que me conecte com todo o Universo, pois sou parte dele.
Desperto-me. Abro os olhos.
Dou fim àquela experiência hipnótica.
Sinto a calma.
Não é possível apressar o tempo da natureza.
A paz se revela como um passarinho que repousa na minha janela.
Percebo o movimento da vida, a alegria de estar viva e ouço a música de uma grande orquestra, composta por mares, ventos, chuvas, insetos, aves. Percebo que faço parte dessa música, pois posso ouvir a batida do meu coração.
Tun Tun Tun Tun
A vida pulsa dentro de mim.
Tun Tun Tun Tun
Eu começo a entrar no meu ritmo e passo a respirar de forma consciente.
Lá no fundo, posso ouvir: “Não se preocupe com o dia de amanhã. O dia de amanhã cuidará de si mesmo”.
Sinto o ar entrando fresco, limpo, renovado, ao passo que as impurezas vão saindo.
Esse movimento cíclico ocorre em sintonia com ritmo do mar, que vai e vem.
Cada minuto não é mais igual ao outro, cada pessoa não é igual a outra.
O tempo não é só investimento para o futuro, para se poupar ou se perder.
O tempo é um presente.
Juliana Latini
*Texto inspirado em conversa com Daniel Munduruku
Créditos da imagem: Unsplash
Turbulência
Postado no 16 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Raquel Alves Tobias

Turbulência
Chega!
Não procure.
Chega!
Apenas dure.
Aperte e pulse.
Quando a máscara cair,
ao primeiro sinal de rarefação,
puxe-a para liberar o fluxo.
Então, respire.
Fundo.
Primeiro você.
Depois o mundo.
Raquel Alves Tobias
Créditos da imagem: Pixabay
Leitor Também Escreve: Jaqueline Dergan
Postado no 15 de junho de 2021 Deixe um comentário

Coração Mar
Meu querido coração
às vezes manso
tempestuoso
às vezes ruidoso
Brinca de ser mar
De infinitas cores
nuances
Mergulha em si mesmo e se bate como ondas
Em minhas angústias faz-se pequeno
Como se o mar se resumisse a pingo
Espremido
Aprisionado
Mas ao alvorecer
gigante
Infinito
Renascido
A luz vem e o mar que antes era pingo
Volta a seu lugar de imensidão
De vida
De libertação
Ahh coração
Como é bom te conteplar
Perceber que és forte
Vivo
Perceber que és mar.
Por: Jaqueline Dergan
Créditos da imagem: Pixabay
Aguar-se: Banho
Postado no 14 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Aguar-se: Banho
Poderia ser apenas um banho
Simplesmente água
Mas é lavagem de fora que lava dentro
Leva embora a irritação, o cansaço, o dia pesado
Deixa a poeira dissipar pelos cabelos do jato do chuveiro
Cabelo transparente
É água corrente
Me deixo, me largo
É água quente
Pode ser inverno ou verão
Não tomo ducha fria, de cara, não!
Pode até ser… num segundo momento…
Mas, de primeira, só se eu estiver numa tremenda suadeira
Me lavo, me derreto
Às vezes canto, noutras apenas deixo a fumaça embaçar os vidros, o espelho, meus pensamentos…
É um relaxamento, permissão,
Autorização para se esvair, se derreter e não se conter
Deixar descer pelo ralo o dia perdido com obrigações, insatisfações, lamentos…
Saio leve, com a pressão mais baixa, o peito mais vazio, o cabelo mais molhado e o corpo preparado para dormir embalado
Banho…
Sorte a minha poder tê-lo todo santo dia!
Por Bianca Latini
Em 05/04/21
Créditos da imagem: Pinterest
Numerótica
Postado no 11 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Numerótica
Quatro mãos encontradas
Duas mentes perdidas
Dois olhares cruzados
Uma certeza nascida
Duas bocas,
Um beijo
Duas línguas,
Um desejo
Uma provocação lançada
Duas mordidas trocadas
Três gemidos fugidos
Quatro lambidas abusadas
Dois sorrisos
Uma cumplicidade
Dois corpos
Uma necessidade
Mil sentidos aguçados
Um sentido perseguido
Uma reta para o infinito
Infinitas curvas no caminho
Dois corações,
Uma vontade
Dois amantes
Uma unidade
Uma sede que cresce
Um incêndio pode saciar
Dez unhas que se arranham
Dois corpos a se queimar
Uma dança
Mil movimentos
Uma explosão
Dois eternos momentos
Vinte dedos entrelaçados
Duas respirações incontidas
Quatro olhos cerrados
Uma paixão abrandecida
Duas entregas
Cem calores
Duas pequenas mortes
Zero pudores
No final das contas
Um Teorema a solucionar
Uma divisão de corpos
Dois corações a somar
Duas subtrações das mentes
Fazem o tesão multiplicar
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
Os pequenos grandes detalhes da rotina
Postado no 10 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

Os pequenos grandes detalhes da rotina
Deitei para dormir.
O cansaço era evidente pelas olheiras acentuadas no rosto. Você deita ao meu lado. Percebe pelo meu humor que estou com fome, mas sem coragem pra me levantar.
Levanta. Faz a minha típica farofa com ovos favorita.
Me traz na cama.
Me sacio de comida e de cuidado.
Quanto cuidado.
Quanto amor.
Você deita também cansado. Reclama da dor no ombro esquerdo.
Percebo que não se sente bem, mas não quer falar.
Levanto.
Vou a caixa de medicamentos.
Passo aquele gel fedido e ardido em seu ombro. O alívio é imediato.
Te alivio da dor e te sacio de amor.
Quanto amor.
É sobre esses pequenos momentos.
É sobre esses grandes momentos.
É sobre a parceria.
É sobre a intimidade da ausência de palavras, nas frases trocadas nos olhares.
É sobre a simplicidade de um dia normal, é sobre a grandiosidade de um dia normal.
Tão cheio de cuidados, afetos e gestos.
Dormimos.
Meu pé gelado encontra o seu para se esquentar.
Você deixa soltar um leve sorriso por constatar minha mania irritante.
Adormecemos.
E, assim, amanhã tem mais amor.
E assim será pela vida inteira e mais um pouco.
Por: Priscila Menino
Créditos da imagem: Pexels
Poema ao Verbo Namorar
Postado no 9 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

Poema ao Verbo Namorar
Namoro aquela cuja alma me agrada,
Cuja paixão me afaga
E me faz, em manter presença, teimar.
De razão tão franca,
A ponto de ter a doçura mais fácil e sincera;
É a personificação da insistência severa,
De mesmo, às minhas tolices, amar.
Namoro – aquela que me acode e que tanto valoro –
Quase uma parte de mim mesmo,
Que se vê tão completa em outra pessoa.
É a certeza de que tudo passa,
Mas nem sequer o percebo;
Se me quedo ausente, é abalado, tão assim, meu sossego;
Mas, perto, as desimportâncias se aquietam,
Para longe revoam.
Namore, se entrelace, valore,
Para que o tempo não roube de ti a saudade daquele momento;
E dele, tu nunca exijas piedade, ao te faltar – feito ar –
O aprazível e aprazável alento,
Da vontade que te açode a alma,
Por não ter o sincero enamorar.
É o amor, que desejo, não te haverá de faltar.
Namorar edifica, solidifica,
É cimento.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 09/06/2021)
Créditos da imagem: Pixabay
Clássicos da Literatura: O. Henry
Postado no 8 de junho de 2021 Deixe um comentário

O Presente dos Magos
“Um dólar e oitenta e sete centavos. Isso era tudo. E sessenta centavos estavam em moedinhas de um centavo. Moedinhas economizadas, uma ou duas por vez, pechinchando com o dono do armazém ou com o verdureiro e o açougueiro, até que o homem ficava com as bochechas vermelhas diante daquela imputação silenciosa de avareza que uma negociação tão acirrada deixava implícita. Della contou três vezes. Um dólar e oitenta e sete centavos. E no dia seguinte era Natal.
Claramente não havia nada a se fazer a não ser desabar no pequeno e surrado sofá e chorar. E foi o que Della fez. O que nos leva a fazer a reflexão moral de que a vida é feita de soluços, fungadas e sorrisos, com o predomínio das fungadas.
Enquanto a dona da casa vai aos poucos passando do primeiro para o segundo estágio, dê uma olhada na casa. Um apartamento mobiliado de 8 dólares por semana. Não que para descrevê-lo fosse preciso mendigar palavras, mas decerto parecia à procura do ‘esquadrão da mendicância’.
[…]
Della terminou seu choro e deu um retoque nas faces com sua almofadinha de pó de arroz. Foi até a janela e olhou com tédio para um gato cinza, andando sobre uma cerca cinza, em um quintal de fundos cinza. No dia seguinte seria Natal, e ela tinha apenas um dólar e oitenta e sete centavos para um presente para Jim. Vinha há meses economizando cada centavo, e o resultado era esse. Vinte dólares por semana não duram muito. As despesas haviam sido maiores do que ela calculara.
[…]
Jim ficou parado junto à porta, tão imóvel quanto um cão setter sentindo o cheiro da caça. Tinha os olhos fixos em Della, e havia neles uma expressão que ela não conseguiu decifrar, e isso a deixou aterrorizada. Não era raiva, nem surpresa, nem desaprovação, nem horror, nenhum dos sentimentos para os quais ela se preparara. Ele apenas olhava fixo para ela com aquela expressão peculiar […]”.
O. Henry (pseudônimo do autor norte-americano William Sydney Porter)
Créditos da imagem: Unsplash
Caleidoscópio
Postado no 4 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Mauricio Luz

Caleidoscópio
Pergunto a uma vidente
Que surgiu em meu caminho:
“O que acontecerá a mim?
Qual será o meu destino?”
Negros olhos me encaram
Lendo o que estava escondido
E sua voz suave e firme
Contou-me o que estava escrito
“Olho para o passado
E vejo
Em um mosaico de lembranças,
Coloridos fragmentos.
Olho para o futuro
E vejo
Em um mosaico de esperanças,
Os mesmos coloridos fragmentos.
Pois para saber o futuro de alguém
Basta ler o seu passado
Suas ações o trouxeram até o momento
E elas que a levarão a seu legado!
Se nada for mudado,
Alcançará o lugar para o qual está indo,
Ainda que indesejado.”
Agradecido fiquei
Inebriado por tanta sabedoria
Pois o destino de todos é um só
A diferença é como se caminha
E atento à rota traçada
Desperto às belezas da jornada
Certamente será bela a minha chegada
Ao mistério do caleidoscópio da existência
Mauricio Luz
Créditos da imagem: Pixabay
Marias, Carolinas, Marinetes e Súvilas
Postado no 3 de junho de 2021 Deixe um comentário
Por: Juliana Latini

Marias, Carolinas, Marinetes e Súvilas
Sem querer romantizar e nem estigmatizar a favela.
Lá…morei com Marias, Carolinas, Marinetes e Súvilas.
Lá…a pobreza é um rótulo simplista para classificá-la.
Ao adentrar e vivenciar o seu cotidiano, conhecendo os nomes, as histórias e suas formas de expressão, fui construindo o sentimento de pertencimento à comunidade.
Lembro-me das alegrias, tristezas, desigualdades e diversidades. Da solidariedade e do apadrinhamento.
Lembro-me de encontros na praça, crianças correndo, barulho de chinelo e o abraço, toda vez que eu começava a subir a ladeira.
Muita garra de viver diante de limitações, privações e estigmas.
Por muito tempo, eu rejeitei o rótulo de ser favelada.
Como os preconceitos são duros de se quebrar e como é difícil removê-los por completo…
Hoje, tenho muito orgulho de ter sido acolhida nessa rede de apoio,
lugar de muitas belezas, onde as riquezas não se restringem aos bens materiais.
Juliana Lopes Latini da Silva
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