Promessa (des)cumprida

Por: Thiago Amério

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Dez Mandamentos:

Um norte.
Um caminho cumprido.
Uma porta larga.
Vários pedidos.
Muitos arrependimentos.
Alguns compromissos.
Inúmeras promessas.
Mesma conduta.
Um grande sentimento:
se as pessoas descumprem
por que se comprometem?


Crédito da imagem: Thiago Amério

A cabeceira dois.

Por: Diogo Verri Garcia

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Passou mais um, em compasso lento, aguardando na cabeceira dois.
Não na vinte, eis que não permite o vento;
nem em outra mais, pois não existe a três.
Antes, passaram tempos,
Passaram tantos, quem perdeu as contas, que voltou a vez.

Fazia dias que não olhava à sua volta
prostrada às costas a janela,
Onde laborava o sol todo prosa ao nascer.
De lá, onde se via o mar, cego,
Deixava a janela entrepassava
E acendia as luzes,
Para que fosse possibilitado ver.

Mas um dia o sol, de calor que arde feito vela,
Aproveitou-se da janela mal fechada
– a sempre cerrada janela -,
De frestas em frestas, refletiu na tela,
ocupou a sala.

De modo que a luz abafada,
De ar feio, virou paisagem em veraneio
Quando subiu a tranca,
permitiu-se a brisa, abriu as cortinas.
Era uma manhã tão clara.

E então notou que passava outro mais,
Mirando a cabeceira dois.
Assim como barcos rumo ao cais.
Havia a tal paz que agrada; que já se exacerbara.
Era o mesmo mundo,
mas entrou o sol ao abriu a janela:
Viu-se a Guanabara.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 18/10/2019)


Crédito da imagem: Pixabay

A Procissão

Por: Diogo Verri Garcia

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Três velas foram acesas
Para prorrogar o que ensejam
outras três que apagaram.
Mais seis pares foram ofertados ao santos,
para acalentar dores e prantos,
para alcançar o necessário.

Dezenas foram à igreja
Caminharam com firmeza
Passaram e fizeram promessas
Compareceram até em procissão.
Tantos entregaram juras
Virtuosos ao som da reza,
Que finda nem sua metade,
Já repediam, em devoção.

Muitos que fizeram reza,
Prometeram as mais árduas promessas,
Muitas das quais não poderiam nem cumprir.
Falavam a verdade, quando juraram tão depressa,
Que nem lembrariam um dia,
O que não se deixou concluir.

Fizeram prece de tamanha veracidade,
Levantaram estandartes,
Juraram tudo, a cumprimento severo,
Feito o devoto em devoção
Mas que depois se esqueceu de adimplir.

Ganharam as graças,
Foram as praças,
Comemoraram a tudo.
E nunca mais rezaram para agradecer,
só outra vez para pedir.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 05/10/2019)


Crédito da imagem: pixabay

Vermute e Jazz

Por: Diogo Verri Garcia

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Quando vi que chegava tarde,
Na verdade era bem cedo.
Quando soube que a voz
era sinceridade,
Corri ao encontro; não houve desterro.
Sem perceber que o dia de penumbra
na verdade era sol.
Ao não aquiescer que o sustenido maior que tocava
Era menor bemol.
Quando vi que o tudo o que se passava,
Passava e pouco se agradecia.
Ao notar que as trevas que tantos se queixavam
Era o mais lindo dia.
Notei que a vida que adiante passava,
passava diferente
Entre gente que sem refrão já chorava
E os sensatos felizes que se punham contentes.
Percebi que o jeito calado que pouco olhava,
Era de contentamento.
Notei que o momento que espreitava
Já aguardava por um tempo.
Um momento de brisa entrecortada,
Não em frente, mas tendo algo do mar.
Tendo a razão da maré que se achegava
Já querendo ficar.
Observando um pouco de paz, em semitons infiéis.
Como uma alvorada em jardim.
Esperando um drinque de vermute e gim
E um piano de jazz.

(Diogo Verri Garcia, setembro de 2019)


Créditos da imagem: pixabay

 

Os malabares

Por: Diogo Verri Garcia

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O que está a ser reservado, será.
Não há flores, não há guerras, nada que possa abrandar.
O que tende a ser certo,
malfadado não se faz e não se fez.
Acontece em que pese a força,
Mas se reforça na prece.
Jaz a paz, mas chega a vez.

Só não sei se o acaso cobiça algo em troca,
Se joga-nos tão ao alto quanto malabares,
Que não conserta-nos, e desconcertante, entorta-nos.
O que há em ser destino se não um cassino em que nos aposta a sorte?
Tanto infirma-nos, posto que encaminha-nos:
Chega a dar tontura,
em corporatura de cadeira em garrote.

E segue em todos a comum visão do inquieto,
Que tende a olhar mais o pranto
Que não explica ao certo,
Que não acha o encanto,
Mesmo que seco,
Mesmo que não doa,
Não é feliz pois deixou-se
(em ceguidade e renitência) sucumbido.

E desinibiu-se na teima de um léu descaso.
No que é fé ou afincado passo,
Segue o andaço, mesmo abatido.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 10 de setembro de 2019)


créditos da imagem: pixabay

A deselegância do cretino

Por: Diogo Verri Garcia

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Deselegantemente,
Escolhe seu melhor terno.
De desalinho notado,
panos mal costurados,
De corte nada moderno.

Com uma calça sem vinco,
De vividez sem afinco.
Não minto: a fivela surrada e o couro nada distinto
tomam conta do cinto.

Os punhos da camisa são menores que as mangas
de um terno de listras, com camisa xadrez
e desbotada gravata da cor de pitanga.
Carrega um lenço de branco amarelado,
Pente de osso quebrado.
Toma uma caneta guardada,
com falsa aparência de cara,
Que nem se achada eu quero.

Sai com um pisante vindo do sapateiro,
Contando com um devido cuidado
para reformá-lo inteiro.
Exagerando na graxa, para cobrir arranhões.
Mudado o solado ruim de borracha,
desgastado por muitos pisões.

Abre um sorriso tão franco,
Marcado por um enorme brilho,
Pois vai esperar por um filho
que tencionou visitar.
Era um palácio de salas, cheio de empecilhos,
Com gente imponente
que lhe manda aguardar.

Finalmente chegou um rapaz apressado,
Com traços já desgastados,
Quase tão velhos que o pai.
Este a tempos não via: que a vida não permitia,
Filho que sempre dizia,
Mal como sempre se sai.

Tantos que ao jovem apressavam,
A afugentá-lo da imprensa,
E dos credores de contas
de exigibilidade já não mais suspensa.
Dos prejudicados que exigiam
nem que uma mentira, uma qualquer explicação.

Repetiu-lhe o velho
Que deselegante é viver na mesmice.
agir com tolices,
Buscar a forma errada,
Entrega-se ao preguiçoso atrevimento,
Criar tormentos,
Ferir os outros por nada.

Mas era impassível o filho,
sem demonstrar vergonha,
palidez ou desatino,
Pois era folgado o cretino.
Em meio a dúzias de fotos
e a gritos de populares,
Vídeos de celulares de gente sem compaixão.
Trajava o filho um terno de pano caro e corte fino,
Cortado às custas de muitos destinos,
Que só lamentava
Por não ter nada mais caro nas mãos.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 30 de maio de 2019).


Crédito da imagem: pixabay

A forma de a vida passar

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Por: Diogo Verri Garcia.

Sinto-me inexato
Sobre como corre a vida.
É assim que estou
vendo o rosto que busca, já em cansaço.
É tal como percebi a cada passada, um descompasso.
Ainda que me veja, na vida, acolhido,
Talvez não mais sinto, pois que faça-me o ferido
Na proposição de não querer ser
displicente ou sem graça
frente ao que ela colhe: face à vida,
passo entretido.

Sigo,
Porém sem pensar que seja la algo triste ou
a se evitar.
Não digo que ela é um bem, em que algum mal haverá.
Apenas proponho que ela propõe armadilhas sem dó.
Feito uma moça que é linda,
mas que se torna apenas bonita
quando nos deixa só.

E assim como elas, as moças,
a vida instiga-nos em tê-la,
Pondo jovens amores
e velhos senhores a entretê-las
Crendo ser fácil que tudo pautará felicidade,
E esconde o desastroso perceber
da menor dor, da menor tristeza
E da inevitável saudade,
na morte pelo amor,
ou pela idade.

Nem que me faça o todo sempre contente,
Tenho sempre no mais profundo de minha mente
que a vida insiste em girar.
E gira de modo que, feito roda
Não há ponto plano: tampouco aqui, nem acolá.
Entenda-a e só assim seguirás resiliente;
Não é boa nem má,
É ela, quanto a nós, indiferente,
Sem ter o nó da euforia, nem o pesar.
É a forma de a vida passar.

Então
Quando o inexato fizer seu trato a incutir
alguma sombra de pavor: não tema a vida;
quanto ao rancor, deixe esvair.
Ainda que o momento não exista propício,
Um algo bom haverá,
e igualmente assim, nos deixará,
Feito o medroso de altura,
No altaneiro edifício.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 23 de julho de 2019).


Créditos da imagem: pixabay

Outro brilho, mesmos olhos.

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Por: Diogo Verri Garcia

São os mesmos olhos daquele dia,
Porém já distantes e frios
Os olhos dela não mais se abrilhantam:
Passam demonstrando nada mais que vazio.

E percebo que tais olhos não têm sua luz própria
Só refletem o que penso dela em meus pensamentos
Que por inexatos que sejam, mesmo que racionalmente os ignore,
Revelam sentimentos.

E o que sinto e o que vejo, nos olhos dela
São o motivo e a desgraça,
A argumentação para o que embaraça
O embaraçado amor que já tive.

Não sei se algo substancioso tencionou a mudar
Ou se apenas a direção do barco começou a girar
E eu me entretive.

Hoje tenho a ver que o mesmos olhos,
Dos quais tantas palavras saltavam,
não mais escrevem.
Que nem mesmo para curar a culpa
Dessa previsão não fortuita
talvez nem para isso eu mais reze,
Pois é possível demais que alegar desamor
seja um intento
Para quem – tal qual eu – não tem melhor argumento
Para não querer mais.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 23/07/2019)

Os Azevinhos

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Por: Diogo Verri Garcia

Há vezes que a solidão é o melhor adivinho,
Sem importar o que nos importa no mundo.
Deixar esvair a mente, que vá.
É fricção do perigo que corre o gosto
De não esvaecer a tensão de deixar-nos
No tumulto que nos entorna a rodar.
A pausa não é sem graça, nem morna,
É azevinho
das folhas verdes, onduladas e espinhosas.
Alongadas e com flores, de bagas vermelhas;
Iniciantes singelas e que põem copiosas,
Pois que brilhantes e longevas,
tal como o longe chegamos ao permitirmo-nos parar.
Lembrando só de quem queremos
Pelo bem – e ponha o resto a andar.
Dedicando um silêncio que só é cortado
pelo som das folhas passadas,
Da caneta posta à mesa,
Das teclas já datilografadas,
Do verso que interrompe a rotina
(que, extenuada, cobrou-me um tempo,
o qual, merecidamente, aquiesço,
tamanha a sorte que só agora me atina).
É no solitário refinamento que
vejo o quanto é veneno
Nunca ser o próprio destinatário.
Saber que até o vento
Segue hora e itinerário.
Mas para: não sopra a todo acontecimento.
Seguir solitário? Não, a ser perene não quero,
Pois não sobrevivo se for.
Mas aquiesço, se me for proposto
E corroboro a mim mesmo propor.
Mas que seja assim mesmo…
Só neste momento.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 08/09/2019)


Créditos da imagem: pixabay

Cicatrizes

Por: Mona Vilardo

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Sempre pensei na palavra cicatriz como algo ocasionado por uma dor, podendo ser física e, digamos, vista à olho nu. Ou aquela que não se vê, mas se sente: a dor da perda de um grande amor, a dor da decepção com um amigo. Essa que se sente, muita gente tem. As vezes até coleciona.

Mas, essa semana me lembrei da frase do poeta Manoel de Barros. “Não gosto de palavra acostumada”. Poeta, concordo com você, e, em poucas linhas, mudarei o sentido doloroso que a palavra cicatriz carrega.

Sim, eu tenho cicatrizes felizes. E, muitas delas, foram ao lado do meu irmão.

Até hoje, no meu joelho direito eu tenho uma cicatriz de quando brincávamos de correr um atrás do outro no Clube do Fluminense, onde íamos em família todos os finais de semana. Numa dessas corridas, abri o joelho num azulejo quebrado. Choro, sangue e uma cicatriz considerável. Mas ali, a maior cicatriz foi a diversão de dois irmãos brincando de pique pega!

Na mesma época do joelho machucado, descobri aquele mertiolate que ardia – e o meu irmão ria de mim, lógico! Nessa hora, eu queria matar ele. E, como uma criança perversa, dizia que ele tinha sido achado no lixo. Quem nunca disse isso pra um irmão quando criança?

Quando me formei no jardim, ele entrou comigo de mãos dadas na cerimônia de formatura, fazendo muito bem o papel do irmão que devia estar pensando: – Agora você vai aprender a ler e eu não preciso mais ficar dizendo o que tá escrito nos lugares! Ufa!

Depois da aula da escola, dividíamos o tatame de lutas juntos, construindo ali cicatrizes de quedas e perdas nas competições, mas sabendo que um sempre torceria pelo outro.

Aos 11 anos tive a cicatriz de ser irmã de um menino. Essa, vem com todas as brincadeiras típicas de…menino. Me lembro de me vestir como tal (boné, bermuda larga e uma blusa da Ala Moana) e ir brincar com ele de se esconder na garagem do prédio. Era uma noite chuvosa e estávamos nos achando praticamente dois super-heróis entre os carros. Por algumas horas, a garagem virou um parque de diversão para nós dois.

Na juventude, me recordo da cicatriz que ele deixou em mim quando eu tomei meu primeiro porre. Lembro dele cuidando de mim, me dando o chocolate Diamante Negro aos montes e me levando para dormir na casa da mãe de um amigo da escola. Lógico, que entre o Diamante Negro e a ida pra casa da mãe do amigo, teve um esporro básico de irmão mais velho. Mas, aquela cicatriz foi a de um cuidado extremo que ele teve comigo.

Por sorte dele (e minha, claro), o episódio não se repetiu. Não o do cuidado, mas o da “bebedeira” … rsrs

E as cicatrizes das boates dos anos 90? Essas, temos aos montes, não daria para contar aqui.

Depois, tivemos a cicatriz de eu sair da casa dos nossos pais primeiro que ele. Essa, não foi muito feliz no ato em si, mas foi a primeira vez que não iríamos mais dormir na mesma casa, onde muitos anos atrás brincávamos de fazer cabana unindo uma cama na outra – mais uma cicatriz de alegria, eu me lembro como se fosse hoje.

Há três anos, ele me deu de presente, a cicatriz de ser tia. Eu nunca imaginei que, ver o meu irmão saindo da sala de parto com sua filha no colo, fosse me causar tamanha emoção.

– Poxa, outro dia mesmo ele brincava comigo de Atari e descíamos a rua que morávamos num carrinho de rolimã!!! Agora, ele é pai! Que tempo é esse que passa tão depressa?

Você pode estar pensando que eu poderia ter mudado a palavra cicatriz pela palavra memória.

– Poderia mesmo! Mas, além de ser fã de Manoel de Barros e também não gostar de palavras acostumadas, foi exatamente olhando a cicatriz no meu joelho direito, no dia do irmão, que me lembrei de tantas outras cicatrizes felizes ao lado dele.

Cicatrizes, memórias, lembranças. Não importam as palavras ou rótulos. O que importa é colecionar sentimentos. Isso, eu e meu irmão fazemos até hoje.

Haja esparadrapo!