Um pisante lustroso

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Por: Diogo Verri Garcia

Se existisse um solado no samba
Que fosse um andarilho tipo principal
Conhecedor das canções e das bandas
Bem experimentado pelo carnaval.

Que tudo sambasse e rimasse
Com sapateado fino de desinibir.
Era o sapato todo desavergonhado
Que buscou a gafieira pra se distrair.

O solado sozinho andou,
Procurou por um ponto de samba
mas não encontrou.
Caminhou bem ao largo da areia do mar.
Cuidadoso, bem cuidou para não se molhar.
O sapato que não era bobo
Esperou chover, esperou ventar.

Andejou a calçada central,
Andando em frente a faixa junto ao areal.
Ao encontro foi de outro par de pés,
Queria samba, mas cogitou até o arrasta-pé.

Arrumou-se todo elegantemente,
Sentiu-se até contente após se vestir.
Encontrou enfim uma gafieira
Tocando samba de primeira e resolveu subir.

Encantado com o salão tão vistoso,
Viu no liso e plano taco um viçoso espelho.
Eu avisei, mas não aceitava conselho:
O salão, deveras cheio, inspirava receio.

O sapato lançou-se contente,
sapateando impertinente a se exibir
Mas a sorte que era faceira
Achou a casa muito cheia e resolveu sair

O sapato levou um tostão,
Uma esbarrada, uma pisada e até um arranhão.
Tropeçou cambaleante quase por todo o lugar
A gargalhada era tanta que fez o som parar

Mas do desastre tristonho e premente
Que coube graça a tanta gente
também se corrigiu
Quando a sorte voltou no tablado
Viu o sapato alvoroçado e se compungiu.

Beliscou a sorte logo um salto fino,
Que passava alheia ao atino,
sem sequer notar.
Que olhou para o tablado finalmente com afinco
E viu o sapato em baixa estima a se lamentar.

Tanto gostou do rapaz que assistiu,
Pôs-se o elegante salto fino a se compadecer.
Caminhou até o sapato abatido,
Ali brotou o amor que o samba fez nascer.

(Diogo Verri Garcia, Rio, 21/10/2018)


Créditos da imagem: pixabay

Coitado de mim

Por: Tadany Cargnin dos Santos

Coitado de mim, sem mim

Mendigo de esquina, impotência

Meio assolado, algo assim

Emocionais ruínas, em decadência

Vadio na calada da noite

Sorrateira inconsciência social

Flagelado por invisíveis açoites

Anestesiado num manicômio individual

Pavorosa tristeza, olhos cabisbaixos

Contradições cognitivas, ações aflitivas

Abismais incertezas, mundo que não me encaixo

Estruturas insanas, realidades ofensivas

Desnudo de esperanças espirituais

Numa cruel batalha interna, desumano motim

Crepúsculo assombroso de infernos terrenais

Sobrevivendo horrorizado, coitado de mim.

PS: Para citar este Poema:

Cargnin dos Santos, Tadany.Coitado de mim.www.tadany.org®

Cor – tinha

Por: Mona Vilardo

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Uma das maiores mudanças que acontecem quando saímos da casa dos pais e vamos para a nossa casa é: casa sempre tem coisa para arrumar! Alguma amiga se identifica?

Tenho ao meu lado um verdadeiro dono de casa. Palmas para os maridos que também organizam seus lares ao lado de suas esposas. Ao lado de uma mulher maravilha tem sempre um super-homem!

Muito bem, eu e o super-homem discordávamos em uma coisa: ter cortina em casa.

Cortina para mim sempre foi sinônimo de bloquear espaço e horizonte. Talvez o significado da palavra me levasse a pensar assim. Já deram uma olhada?

“Muro que liga dois baluartes” ou “Móvel fixo na casa” – esses significados soam mal aos meus ouvidos. Logo eu que tento sempre quebrar muros nas minhas relações e não curto nada fixo demais, endurecido. Resumindo: crio pontes e sou maleável!

Mas o super-homem sempre queria uma cortina, e eu passei 2 anos e meio tentando convencê-lo que era lindo ver tudo aberto, mesmo que o lado de lá fosse a varanda do outro prédio.

– Não é tão próximo do outro prédio, vai…

– Ah, meu bem, olha a claridade desse apartamento sem cortina!

– Vai ficar calor, hein!!

Eu dizendo frases à base de kriptonita para clamar pela inexistência de cortinas.

Muito bem, numa noite de insônia, meu marido (SP) disse:

– Poxa, tentei ficar na sala, mas sem cortinas, não dá né? Parece que todos me olham no prédio da frente. (Todos quem? Às 3 horas da manhã?) – Eu  pensei. Mas, ok!

Bastou isso para eu ligar no mesmo dia para a “moça que faz cortinas”. O incômodo dele teve um grande peso para mim, e me mostrou que a felicidade dele em ter cortinas era muito maior do que a minha, em não ter.

Abrindo mão em 3, 2, 1!

Marcada a visita da moça das cortinas e ela mostrou a paleta de cores. Tristeza total. Aquele cinza, aquele marrom ou aquele painel sem graça iriam acabar com o colorido da minha casa.

– Vamos colocar um colorido nisso aí, eu sei que não está no catálogo, mas eu desenho pra você, achamos o tecido e pronto. Que tal?

O super-homem concordou – ele também pensa colorido como eu.

A cortina chegou. Naquele momento caiu por terra qualquer significado negativo que eu via na palavra e no objeto cortina.

– Muro? Fala sério, Mona! – Sentir calor? Para que serve o ar condicionado? – Por que você não reclamou antes da sua insônia? Essas cortinas podiam estar aqui há mais tempo!

E naquele mesmo momento, eu mudei o nome da palavra cortina (pra quem muda o catálogo, mudar nome é praticamente a mesma coisa).

Agora, aqui em nossa casa, ela se chama COR-TINHA. E nesse lar ela construiu mais pontes e me tornou mais maleável!

Surpreendentemente, a gente aprende até com as cortinas!


Crédito da imagem: arquivo pessoal.

Frases escritas

Por: Tadany Cargnin dos Santos

Frases escritas com lágrimas

Ensopando papéis, sem anéis

Frases escritas com espadas

Cortando algemas, humanos dilemas

Frases escritas com sangue

Hemorragias emocionais, medos essenciais

Frases escritas com veneno

Toxinas desamoráveis, suspiros insuportáveis

Frases escritas no silêncio

Privações de vocábulos, confinador estábulo

Frases escritas e descritas

Aparente purificações, máscaras malditas

Que não queriam se expressar

Por medo de dizer, o que na realidade pode magoar

Mas que saltam do âmago

E, mesmo que quisesse, não poderia controlar.

PS: Para citar este Poema:

Cargnin dos Santos, Tadany.Frases escritas.www.tadany.org®

Às Menores Coisas

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Por: Diogo Verri Garcia

Não me busque
Quando houver tristeza.
Quando eu me fizer triste
Que seja do tamanho exato do vazio
Que cabe em um verso posto em guardanapo.
Um pedaço de papel dobrado
Contendo um esforço baldio.
Que se perca, pequeno o bastante para não seguir adiante
Não permita a ela destreza; aperceba
Que somente louco torna a tristeza confiante.

Mas quando os sorrisos forem amplos
Que não haja cantos para onde os prantos se acomodem
Traga todos quantos alegres nos envolvem:
Os amigos reais, os amores carnais, os pais.
Quem nos revira no mosto que se torna vinho em seguida.
Não me busque só,
Quando houve felicidade.
Que se aperceba e que a receba com o sorriso mais alegre,
Tenha algo que lhe dê albergue e não espere
Haver momento melhor: então me busque, mas não só.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 14/05/2019)


Créditos da imagem: pixabay

O Atrasado de Maio

Por: Diogo Verri Garcia

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O atrasado quando chega ao evento
Passa esbaforido, quase tropeçante no próprio passo
Acredita que o quase lustro perdido passado
Serviu a todos a contento.
E se atrasou, posto que mal percebeu seu descaso.

Os que os aguardavam nem mais aquiesciam
Que a presença vindoura seria alvissareira.
E não foi: foram cinco palavras e a manhã logo finda;
Atrasou mais que o enfeitar da moça namoradeira.

E já estava gelado o café que o aguardava.
De tanto esperar, cansaram, os revoltosos, até do levante.
E agora, calmamente, feito tropa esperavam.
Impassíveis, como quem dá palavras com infante.

Mas, no giro da hora, a demora não mais se acanha,
Era um atraso que foi pressa, chegada a hora de ir.
O novo café, já quente, nem lhe viu a fumaça;
Da letargia acordou; correndo, passa.
Era muita a pressa em partir.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 14/05/2019).


Créditos da imagem: pixabay

Luxo nem Lixo

Por: Mona Vilardo

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Semana passada estive em Belo Horizonte para lançar o meu livro. Considero-me íntima dessa cidade, onde já estive diversas vezes com alguns espetáculos e, agora, como escritora.

Com tal intimidade adquirida, decido aqui chamá-la pelo apelido de “Beagá”, tão fofo como um bom pão de queijo local. Mas, no meu último dia na cidade, dispensei o pão de queijo e fui almoçar num Bistrô muito charmoso e aconchegante que fica dentro de um Centro Cultural.

No cardápio do lado de fora, iluminado por duas velas, me chamou atenção um prato bastante, digamos, refinado: tiras de mignon, acompanhado de arroz com queijo gruyere, cobertas com cogumelos flambados. Resolvi me dar de presente!

Entrei e fiz o pedido ao simpático garçom, que logo me disse: – Hoje é aniversário do Bistrô, estamos oferecendo uma taça de champanhe aos nossos clientes.

– Nossa, então eu vim no dia certo, uai…. (Mentira, eu não falei esse uai, isso é só para dar um clima da terrinha).

Antes de me acomodar na mesa próxima a um belo piano, perguntei onde ficava o banheiro e o mesmo garçom me respondeu:

– Ah, fica lá fora, em frente a lata do lixo!

Nesse momento, todo ambiente requintado, as tiras de mignon, o queijo gruyere e as borbulhas do champanhe desmoronaram no meu pensamento.

Bem, fui ao banheiro em frente a tal lata de lixo, mas aquela orientação dada pelo garçom não me saía da cabeça.

Almoço finalizado: – A conta, por favor!

Antes do garçom me trazer a conta, virei para ele e disse:

– Querido, vamos criar uma frase mais adequada para você indicar aos clientes onde fica o banheiro? Eu te ajudo. Que tal: “Fica do lado de fora, à esquerda, antes do próximo restaurante”?

Rindo, ele me respondeu:

– Sabe o que é? Já experimentei várias maneiras de dizer onde fica o banheiro, mas os clientes nunca entendiam. Quando passei a dizer que ficava em frente a lata de lixo, todos começaram a entender. Aí, deixei assim…

– Ok, abre outra conta para mim e traga mais uma taça de champanhe – pedi ao garçom bem-humorado.

Entre um gole e outro daquele champanhe delicioso, naquele Bistrô charmoso e sentada em frente a um lindo piano de cauda, concluí que naquela tarde em “Beagá” eu fui do luxo ao lixo, sem medo de ser feliz e com duas taças de champanhe na mão. Até porque, relembrando Rita Lee, “ Não quero luxo nem lixo, quero saúde pra gozar no final”.


Créditos da imagem: acervo pessoal.

O Escutar do Tempo

Por: Diogo Verri Garcia

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Apenas ouça
Como passa o vento.
O silêncio que traz o tempo.
Silencioso ao não se notar passar.

Ouça os risos dos amigos,
Os suspiros contidos.
E ao pé do ouvido,
Ouças as palavras de que irás se lembrar.

Escolha a bela música que te toca,
Leia o verso que mais te adota,
Na ocasião que te importa,
Por algo ou alguém cuja falta corroeu,
E te ponha a ouvir:
Que cada linha sirva in totum a ti.

Ouça a chuva que cai nos telhados,
Balançando as gramas e os arvoredos aos lados.
Lembre o afago,
Escute o temporal
A se desinibir.

Ouça o desgovernado tempo que embola tantas coisas.
Veja o esvoaçar das folhas,
O mudar das tuas escolhas.
Que já não são mais do tempo: é o alento,
Sinônimo de passagem;
É a ocasião; a estação,
Condição feito o verão.
É o vendaval que vê o mar exasperar.
E agora ouça…
Ouça o amor que o teu calado amor
Emudeceu
E que deixou passar.

E quando a angústia te disser respeito,
Procure um jeito de só agora ouvir,
Ouça o vento, ouça o chamado do tempo
Que só pertence a ti.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 20/04/2019)


Créditos da Imagem: pixabay

Por uma Bossa Nota

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Se tivesse tão boa vontade, te daria uma nota
Que não demore mais
que muitas frações de segundos, uma semibreve.
Para tornar teu sorriso ainda mais leve
feito a canção que leve
à bancarrota
As tolices mais idiotas
Que, quanto a mim, te deixam confusa.

Se tivesse uma inspiração,
talvez não sei se te faria
uma graça qualquer, um feito em melodia,
uma poesia,
Que atravesse essa mesma mania
De não querer mais quem até ontem quiseras.
Isso amedronta, maltrata e usa,
Feito blusa que tanto aperta que
machuca a pele.

São tuas as palavras mais bobas,
Que inebriam, causam tanto brilho
Num almoço qualquer de um março vazio.
São tão leves as tuas paixões
Tontas e estonteantes
como bolhas de frisante,
que, passado o tempo, dispersam.
E pra quem sobra, fica o copo vazio:
Sente-se entediante,
Do qual riem todos, vestido de comediante.
Afrontando seu próprio riso,
Não há razão que impere.

Na oração, quem te espera,
Espera por um qualquer momento ou por um rompante
Em que apareças sem outro acompanhante,
Caminhe adiante. Frente aos olhos,
digas de tudo, desde que não sejas sincera.
Em um amor, uma demonstração qualquer,
algo extravagante.
Que tagarele sussurros benditos
Ditos ao ouvido em tom atenuante
E que o desgosto sela.

Mas não há graça, nas tuas graças,
Feios vazios que há nos vazios,
Em tantos rios que passam ao arrepio
De quem com as mesmas águas quer querer se acostumar.
Todo qual que desarranjas por entre as franjas dos teus braços
Viveu afagos, mas embarcou em embaraços,
Sentiu martírios em cansaço
Na angústia tardia de querer ficar.

Feito coisas boas que depois passam,
Vidros que embaçam,
Cintos que desafivelem
São teus traços, teus espaços, os teus laços.
Que inebriam e acalmam,
Mas dores trazem à alma.
Só servem à pele.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 15/02/2019)


Crédito da imagem: pixabay

Poema 618

Por: Tadany Cargnin dos Santos

Eles batiam, sem misericórdia e agressivamente, na porta do meu lar

Eu com medo, me escondia em qualquer canto possível

Mas não adiantava, porque eram meus sonhos inatingidos, querendo se exaltar

Uma imagem que não cessou, enquanto eu não os tornei visível.

PS: Para citar este Poema:

Cargnin dos Santos, Tadany.Poema 618.www.tadany.org®