Abre-Alas

Por: Bia Latini

Abre-Alas

Chega!
Eu já me perdi muito nessa vida
Agora eu quero me achar
Sei que ainda vou me perder mais
Quero apenas passar por uma boa fase de acharias, sabe?!
Só um “cadim”
Um “tiquim” de honestidade comigo mesma, com minha história, minha potência criativa e embelezativa,
soterrada por tantas não autorizações, sabotagens, viagens psicodélicas de menos valia e diminuição da integralidade que somos
Da riqueza que nossos corpos guardam
Da majestosa essência viajante de longa data, que traz impressa memórias celulares, corporais, degenerativas, regenerativas, restaurativas, abissais
Que eu seja a extração de todo suco,
o insumo de todas as minhas experiências, frustrações, descobertas, descaminhos, repescagens, pontos de virada, ressurreição…
Vou rodar minha baiana a dar a mão à Carmem Miranda
Meu amor, hoje estou pra jogo….de alegria, glórias, festas e confetes pro Ser que está sendo construído e relembrado, bem aqui dentro desse casulo metamorfótico.

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Por: Raquel Alves Tobias

Quem é você, saudade?
Chegada, dúvida ou partida?
Mordida de fruta doce
Saliva de sede ativa
Veneno inflamável
Abraço apertado
Beco sem saída?

Quem é você, vontade?
Insônia da despedida
Temor da felicidade
Tremor de penicilina
Mão que acaricia
Entre o pêlo que eriça?

Quem é você, desejo?
“Carente de si
Doa a quem doar-se primeiro
Que seja casa enquanto beijo
e na paz do meu travesseiro, more.

Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Unsplash

Cabra-cega

Por: Bia Latini

Cabra-cega

E de repente estou a repetir padrões
Emuladores das minhas opções de chegada
Que escolhas serão essas
Que me fazem cair no mesmo bueiro, tropeçar na mesma lombada?
São eles, os soldados inibidores da liberdade da alma
Aqueles que querem aprisionar-nos em padrões, jargões, fantoches, piadas
Sabotadores
Convidam-nos a mantermo-nos anões, mudos, ensurdecidos, beatos, canonizados
Morais, moralizados
Reduzem-nos a um corpo imaculado
Condutas, posturas, tradições, verdades a serem cegamente encenadas
Costuras …
Desse nosso invólucro corporal
Nas bordas, muito bem arrematadas
Religiões, culturas, sociedades
Em sua essência endividadas, disfarçadas,
Mal amadas
Pretendem que repousemos em leito de obediência, acomodação, IRRESISTÊNCIA
Sugerem que morramos em vida
E vivamos apenas a vida eterna quando a morte chegar…

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Bonsai

Por: Mauricio Luz

Bonsai

Como ousas? Como se atreve a brilhar tanto?
Com que audácia és autêntico e se mostra para o mundo?
Eu me submeti aquilo que me ordenaram
Acreditei no que me disseram as pessoas que eu amava
E que me amavam muito
Mas não a ponto de permitir me amar
Do jeito que eu quisera
Passivo, segui as trilhas que me deram
Ativo em ser aceito e considerado.
Pelo caminho, deixei sonhos e fantasias.
Busquei a ordem e a primazia.
Eu me formei, conformei, deformei.
E uma felicidade de plástico eu alcancei.
Aí, você vem.
Quer ser você.
Vem você, que sai do armário.
Que vive de arte, clamando poesias em troca de poucas moedas.
Que canta nas noites, embalando a boemia,
Que sorri quando quer sorrir, chora quando quer chorar.
Aí, você vem!
E apenas sendo,
Joga na minha cara a coragem
Que eu não tive em ser eu mesmo.
Apenas sendo,
Desmente a minha compaixão ensaiada,
Minha humanidade certificada.
Você vem!
E apenas sendo,
Cospe na artificialidade na qual eu me moldei
E chuta os castelos de mármore que construí
Sobre as areias de regras sem sentido.
Você vem!
E como um implacável espelho
Me mostra as marcas que lutei tanto para esconder
As cicatrizes do que amputei para me encaixar
As rugas do tempo que se foi para que eu não fosse.
E quer minha consideração? O meu abraço?
Eu não consigo! Eu não posso!
Meus olhos se acostumaram à escuridão
E doem à luz da menor chama da menor vela.
Tudo que ilumina meus recantos escondidos,
Minhas gavetas, meus baús secretos,
Precisa ser apagado e eu continue
Na paz sombria que vivo.
Vá embora! Não te quero aqui!
Pára de me lembrar do que poderia ter sido
Se não fosse o molde, o corte, o formato!
Sou um bonsai humano
A potência da árvore
Reduzida a uma planta de vaso.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Faróis

Por: Bia Latini

Faróis

Ser pai e mãe é ser alavanca, maçaneta
É ser degrau, escada
Piscina sem água
A água é justamente o filho
E a piscina pode ser rasa, funda, bem demarcada ou de borda infinita, permitindo ver o horizonte
Ser pai e mãe é ser ponte, farol, guia
É ser veículo e não caminho em si
As pegadas: firmes ou amedrontadas, vão depender do quanto você abre a porta do carro para que seu filho vá a pé
E ser um bom veículo é, também, por vezes, saber se fazer bicicleta, que é transporte com liberdade, velocidade, abertura, vento batendo na cuca que refresca os pensamentos e faz sonhos voarem
É lidar com a dualidade de querer reter e precisar soltar
É saber que não se é dono, apenas instrutor, semáforo, indicador
Ser pai e mãe é não saber e achar que tem que saber
Depois concatenar e assimilar que não se é Deus
Apenas humano, trocando com outro humano que veio depois
É errar porque faz parte da vida
De quem é pai e mãe ou não…
É que quando colocam algo ou alguém sob sua guarda, você sente o peso nas costas,
os dedos e os holofotes apontados para o seu desempenho
Mexe com seu ego e sua potencialidade, seu senso de capacidade
Estarta um julgamento, um apertamento do ” tem que ser” e do “preciso performar”
Mas não!! Esquece isso tudo!
Permita-se apenas ser, transbordar…
Toda sua essência, sua caminhada, buscando ser melhor, fazer o melhor
Sabendo que isso nem sempre vai acontecer e está tudo certo!
Afinal, o que é a vida, senão ela mesma?
Ser pai e mãe é dar-se oportunidade:
De doar e receber, sem expectativa no outro e em si mesmo
É apenas se permitir e sentir
Deixar-se vulnerável, exposto à aprendizagem.

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Freepik

Por: Mauricio Luz

Por que me nomeias?
Por que me classificas?
Qual o motivo de quereres
Limitar-me por substantivos
Que não mostram minha substância?
Por que me rotulas?
Por que me analisas?
Qual o motivo do anseio
Em diminuir a grandeza incalculável do ser
Ao tamanho de tua própria prisão?
Por acaso queres que me reduza
A uma identidade que me foi imposta
Por impostores que não identificam a si mesmos?
Por aqueles que transformam em bengalas
O que seriam degraus de uma escada?
Lagartas, que por medo de voar,
Jamais ousam abandonar o casulo!

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Bastidores

Por: Bia Latini

Bastidores

Parecia tudo tão fácil, tão simples, tão acessível…
Só que existe um abismo enorme entre o que eu vejo, enxergo e o que eu executo
Quando é com a gente, tudo se torna uma montanha enorme a escalar, um terreno não auspicioso
Como eles conseguiram?!
Eu não sabia que aquele espaço era tão maior do que o que eu tenho aqui….
Eu não sabia que custava tanto e dava tanto trabalho…
Eu não sabia….
Eu não sabia, porque enquanto estava no plano da conjectura, do devaneio, da contemplação
A vida estava urgindo, o circo estava pegando fogo, o palhaço estava caçando piadas para fazer a plateia rir, a cozinheira estava picando legumes, desde 4h da manhã, o padeiro estava fazendo a massa do pão….
A vida é sobre os bastidores e não sobre o palco
O palco é sobremesa
e a plateia: ludibriados! Coitados!
Não sabem da missa a metade, da reza, um terço, do pranto, uma lágrima
A plateia faz fila para ser igual
Dança em marcha de Carnaval
Joga confete e serpentina
Em algo que nem atina
Cortina: Que abram suas vestes e mostrem-lhes o bacalhau!

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Freepik

Por: Mauricio Luz

Contempla! Pára e contempla!
Contempla o que está à sua volta!
Te comportas como uma ilha de ignorância,
Mas estás cercado de beleza infinita,
Incontáveis milagres por todos os lados.
Contempla! Sente e contempla!
Contempla a catedral que há em ti
Um templo onde o tempo inexiste
A singularidade que une luz e sombra
Em um beijo de Amor interminável.
Contempla! Respira e contempla!
Contempla e sinta os elementos
Dançando a misteriosa dança da Vida
Bailando no rufar das batidas de seu Coração
No mesmo ritmo do mar e das estrelas
Contempla! Sonha e contempla!
Contempla para além do infinito
Para além d’onde a Mente consegue alcançar
Entrega-te, renda-te, una-te
E perceberás: o canto que busca
Está mais próximo do que imaginas.

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

Viva

Por: Bia Latini

Viva

Você estreia e a vida segue
Você vai embora deste corpo e a vida também segue
Mas quanto de vida você vai levar desta vida?
Não deixe para viver depois que passar no vestibular, depois que casar ou se emancipar
Não deixe pra viver, quando finalizar o mestrado, o doutorado, quando for promovido, sorteado, empoderado
Viva enquanto come, enquanto toma banho, enquanto respira e também quando sente-se sufocado
Viva este breve instante
A coisa mais certa é que nada é certo e que nada está sob controle
Viva, mesmo no caos e flua procurando alternativas para sair dele
Mas, enquanto se esquiva, flexibiliza, apara, acerta…Viva!
A todo momento, quando a tensão fizer morada, senta na calçada e lembra que é para ser divertido, sortido, colorido e não um fardo
Não é para ser pesado, retido, espremido, muito menos dolorido
Mas mesmo assim….a dor vem
E nela, também: viva!
Extrai o suco de cada fruta
O aroma de cada flor
A vertente de cada amor
Respira no ócio, no vazio, na presença
Esteja sempre aqui
Você pode ir, mas não deixe de voltar
Aqui, agora, este segundo…
É tudo o que temos
E não se esqueça: sorria
Não aquele sorriso falso, amarelo, exagerado
Sorria internamente, contente, sabendo que sente
Aquele sorriso dançante, que pode nem aparecer do lado de fora,
mas mora do lado de dentro;
alicerça-se na leveza e fluidez de quem…

Vive.

Por Bia Latini


Créditos da imagem: Unsplash

Por: Mauricio Luz

Palavras, palavras…
São mais do que aparentam significar.
São cristais, forjadas no fogo da Terra,
Gerando encantamento ou volúpia, conforme os olhos que as admiram.
São veneno e fel, quando urdidas no calor do ódio e da raiva,
E escritas na tinta do medo, tornam-se mortais para quem as escuta ou lê.
São bálsamos quando florescem na beleza do amor e da compaixão
Que brotam do peito como a água pura rompendo a dureza do granito.
São mapas e caminhos, nortes oriundos de solidões e buscas perdidas,
Dos passos errantes que servem de esperança para quem tem medo de andar.
São sementes cuspidas, lançadas ao vento ou ao mar,
E germinam como frutos, doces ou amargos,
Como a aorta que lhes serve de horta.
São bombas incendiárias, que provocam caos e destruição
Ou pombas da paz, provocando calma e bem-estar.
Ah, palavras, palavras…
Quando tivermos consciência de vosso poder de Shiva,
Haverá palavra para descrever tamanha conexão, tamanho esplendor?
Ou o destino das palavras é justamente não ser capaz de mostrar
Em nomes, pronomes, verbos e advérbios
Aquilo que pode provocar?

Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay