Leitor Também Escreve: Jaqueline Dergan

[ ] Tem situações que sugam nossas energias. Nos sentimos impotentes diante de certas coisas, como o sofrimento de quem amamos. Mas o que fazer quando a situação de sofrimento do ente amado se arrasta de tal forma que nos sentimos sem roteiro, repertório, rumo que faça aquela pessoa conseguir sair do lugar? E o conflito? O conflito entre a empatia e a culpa. Empatia por sentirmos aquela dor, por querer salvarmos aquela pessoa, e a culpa. Culpa por querer fugir. Por entrar num lugar de evitação. Porque dói. Dói demais ver tanto sofrimento. Aí vem o embate interno: estou sendo egoísta ou estou dando a mim mesmo o espaço para resguardar-me? Sentimo-nos numa encruzilhada de emoções. No entanto, começa a alvorecer em minha mente a reflexão de que certos processos, embora queiramos ajudar, não são nossos, são do outro. Que ainda que tenhamos o impulso de encarnar o super-herói estendendo a mão e tirando o ser em apuros da situação em questão, nem sempre isso será possível. Pois existem momentos em que precisamos encarar a nossa dor, aceitá-la, assumi-la, para passarmos por nosso processo de metamorfose. E dói. Dói muito. Mas nascer dói, assim como todo momento de reconstrução, de ruptura, de recomeço. De se olhar no espelho. De tomar coragem. De pedir perdão. De perdoar. Não existe redenção sem dor. Então, há dores que são nossas, não se pode pegar atalho, acelerar o processo, pois quanto mais tentamos, mais o retardamos. Mais o caminho se torna curvo, distante, inóspito. Demoramos a entender que muitas vezes o remédio é a dor, por mais estranho que possa ser isso. Afinal, é através dela que podemos nos superar. Evoluir. Não é gostoso, mas é necessário. Isso faz aceitar o fato de que nem sempre conseguirei ser aquela mão estendida que poderá emergir meu ser amado de suas angústias. Pois alguns processos são nossos, só nós podemos lidar com eles. Isso nos dá força para aceitar que a vida é como o mar, que oscila entre calmaria e tempestade. Mas passa. Tudo passa.

Por: Jaqueline Dergan


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Desce do salto, volta pra Terra!

Por: Bianca Latini

Desce do salto, volta pra Terra!

Fotos, cliques, recortes de felicidade
Pura fachada
Bossa boa para inglês ver
E pros macacos de auditório que a acompanham no big brother da vida real
No seu caso, de real não tem mais nada!
Desce do salto, do pedestal, desse conto de fadas
Tira a roupa de cinderela
Dá uma folga pros figurantes e pro dublê
Esquece esse lance de cachê
Veste seu chinelo, ou melhor: anda descalça
Come teu feijão com arroz, misturado com banana nanica
Para de querer mostrar gigantismos, fazer pompa, até ali na esquina
Tira essa pele falsa de maquiagem,
os cabelos que você comprou
E, principalmente, esse sorriso tão branco que você fabricou
Para! Para tudo!
Para de clicar e vive!
Para de mostrar e sente!
Para de parecer e seja!
Para de querer chegar à lua, quando você nem pisa no chão e não se nutre do que a mãe Terra tem a lhe oferecer
Para! Joga a câmera no chão!
Segue na contramão da boiada, dessa gente que encena e decora texto
Sempre com um script na mão, um release, um roteiro
Vista-se apenas de si mesma e anda na fé…
Que ela não costuma faiá!

Por Bianca Latini
Em 01/01/21


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Clássicos da Literatura: Carlos Drummond de Andrade

PARA SEMPRE

Por que Deus permite
que as mães vão se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não se apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
– mistério profundo –
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade


Créditos da imagem: Unsplash

ÓTICA

Por: Juliana Latini

ÓTICA

Havia um lugar onde se encontrava um produto inovador. Óculos que possuíam lentes especiais. Ao experimentar as variedades disponíveis logo podia se perceber algo diferente. O fato era que ninguém houvera de passar por essa experiência permaneceu com a mesma visão. Mas o que será que esses óculos proporcionavam assim de tão fenomenal?

No início, a loja criou tanto burburinho que o movimento podia se perceber ao longe. No entanto, passou a pairar algo estranho depois de um tempo. Pois o movimento foi decaindo…Eu de perto observava e nutria certa curiosidade sobre o fato. Um dia, tomei coragem e fui à ótica experimentar o tal dos óculos. Mesmo que o boom tivesse diminuído, não fui guiada pelo marketing alheio. Lá fui eu de manhã cedo, ser uma das clientes a adentrar no recinto. A loja era moderna, com ar minimalista. A vendedora que me atendeu tinha um estilo nada convencional. Achei tudo curioso. Estavam expostos poucos exemplares dos óculos. Não eram bonitos, nem feios. Eram óculos comuns olhando à primeira vista.

Bem, respirei fundo e solicitei um exemplar para provar. Passados poucos minutos, a vendedora chegou com algumas caixas e colocou-as ao meu lado e me deixou à vontade. A única coisa que me informou foi sobre o fato de uns serem de longe, outros de perto. Eu não entendi muito bem, mas peguei um modelo de “longe” com armação vermelha. Coloquei e tive uma experiência de passar a enxergar o campo físico e o etéreo da alma. Eu enxerguei os transeuntes caminhando na rua, na calçada em frente à loja de modo que tinha pessoas que os corpos andavam à frente de suas almas – que como num efeito elástico, puxavam-na. Enquanto outros tinham almas tão pesadas que o corpo caminhava com dificuldade. Havia ainda algumas que a alma voava como um parapente e tendiam com a direção do vento. Poucos possuíam a sensação de equilíbrio, com as crianças que passaram na frente da ótica naquele instante. Mas uma pessoa em especial me chamou a atenção. Uma moça carregava sua alma como um bebê de colo. Era bem introspectiva. Quem a olhasse, talvez nem a notasse, mas ela portava um óculos tal como o que eu experimentava. Ela carregava a alma com muito cuidado e afeto. Se olhasse com atenção podia-se perceber um leve sorriso de aceitação. Aquilo mexeu tanto comigo que eu tirei os óculos e como numa louca viagem voltei a enxergar tudo como antes. Parecia que tinha sido um sonho, algo ilusório da imaginação.

Então fui experimentar os óculos de “perto”. Escolhi um de armação mais discreta, com medo de emoções fortes. Ao colocar os óculos, as lentes projetaram minha visão para perto, mas de fora para dentro. Comecei a me enxergar como nunca vira antes. Minha alma olhou para mim. Eu pude encará-la por uns instantes. Sem saber me relacionar com ela, olhei e sorri como cumprimentando. Ela reagiu aliviada por ter sido percebida, notada por mim. Parecia que tinha muito a me dizer, mas sem palavras pude entender sua queixa em ter esperado tanto tempo para ser notada. Não disse uma palavra, mas sei que ela entendeu que a força da rotina me carregava a pontos de muitas vezes deixa-la pra trás. Mas sabia ela também, mesmo que sem som, que eu a amava.

Após suspirar e um sincero perdoar, sorrimos. Senti-a ao meu lado, como uma grande parceira. Não levei os óculos, mas saí de braços dados com minha alma. Não fiz promessas, mas me comprometi a não deixa-la mais para trás. Ainda que eu demore mais para chegar ao meu destino, estaremos juntas nessa viagem da vida. Numa comunhão entre o físico e o emocional, entre a força e a sutileza, sem ela não sou eu.

Niterói, 21 de maio de 2019

Juliana Lopes Latini da Silva 


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Águas imersas, emergir, imergir

Por: Priscila Menino

Águas imersas, emergir, imergir.

A água estava agitada quase sempre, ela estava imersa, olhava para cima e via as imagens meio abstratas, achava que aquele era o seu normal.
Olhava, mas não via.
Respirava, mas não era o bastante, estava afogada pelas águas movimentadas.
Sentia que aquele lugar era particularmente íntimo, mas, na mesma proporção, sentia o desconforto de não ver com a clareza.
Ela sentia que ainda não era a hora de sair da submersão, era preciso esperar acalmar, esperar maior clareza para ter a segurança do que estava sentindo.
Permitiu respirar mais calmamente, parou de se debater e foi vendo as águas alcançando maior quietude, observou que as formas estavam mais nítidas em seus olhos. Sentiu maior curiosidade.
Resolveu dar levar braçadas e buscar aquela luz acima de sua cabeça. Uma, duas, três braçadas, as formas iam ganhando mais nitidez.
Chegou a superfície, não podia acreditar que durante todo aquele tempo ela estava imersa de águas que não a deixavam respirar puramente o ar e ver as formas com aquela clarividência toda.
Mal ela podia acreditar que achava que o mundo tinha aquele tons abstratos, achava que aquele era o real.
Mas agora ela via as formas claramente, via seus perfeitos tons e contornos, estava consciente, estava presente.
Vez ou outra ela volta a dar mergulhos na água e ver as formas abstratas novamente, apenas para ver de onde ela emergiu e lembrar que nem tudo que parece, é. Sábia, menina.

Por Priscila Menino


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Leitor Também Escreve: Ana Beatriz Brito

a saga dos seres que saem da terra em busca do sol
não cessa.
desde cedo na manhã,
um esforço contínuo de crescimento.
a noite respira.
se enraíza.
afinal,
toda planta sabe,
quanto mais profundas as raízes,
mais próximo se chega do céu.
há tanto a se aprender com a flora.

Ana Beatriz Brito


Créditos da imagem: Unsplash

Homem-pássaro-gado

Por: Bianca Latini

Homem-pássaro-gado

Este solo para mim é infértil
Me deixa seca
Oca
Sem utilidade
Porque nele não há espaço para criatividade
Eu não crio nada
Eu só executo
Algo que alguém decidiu fazer
Esse alguém decidiu. Ele quer. Ele intenta
Não eu
Mas eu executo
Algo que não faz o menor sentido para mim
E como viver assim? Me diz?
Sem criar
Sem florescer
Sem ser
Vivendo como um robô
Sentido-se aprisionada nos horários alheios
Na forma de pensar confusa, que não é a sua?
Priorizando coisas que você, por você mesmo, jamais priorizaria
Gastando bala de canhão para acertar um passarinho…
Passarinho não se acerta
Se deixa voar
E se fosse para acertar…
Que fosse com chuva de flores
E benção de liberdade vitalícia
De que adianta ter asas se elas estão inutilizadas?
Você fica igual a qualquer um
Pássaro vira homem
Só que desnaturado
Porque pássaro nasceu pássaro
E homem nasceu homem
Mas tem muito homem-pássaro frustrado
Porque não está sendo homem, nem pássaro
Mas simplesmente gado.

Por Bianca Latini, em 06/05/21


Créditos da imagem: Pinterest

Epifania

Por: Mauricio Luz

Epifania

A carícia das folhas na pele
A canção do vento entre os galhos
O suave perfume das carambolas
Que formam constelações nos ramos acima de mim
Tudo me leva a Você
Os pés sentem a grama macia
Dedos respeitosos acalentam o tronco da árvore
Cujos frutos se oferecem ao suave toque de minhas mãos.
Você se mostra abundante, vibrante, sem pudores,
E apenas pede em troca,
A mesma entrega em mim.
A vida sorri e canta em cada canto
E os pássaros convidam minha alma a dançar irrestrita
Tudo me lembra a Você.
Das formigas que se aproveitam da abundância no solo
Ao Sol que a toca minha pele
Você está em todo lugar
Por que fui tão longe lhe procurar
Quando esteve sempre tão próximo de mim?
Fecho os olhos e finalmente vejo.
Presente é o único tempo a ser conjugado
para sentir a sua presença
E o poder do silêncio
Que grita sua mensagem
Através das finitas coisas que formam o infinito
Como o Oceano profundo
É formado pela Unidade
de minúsculas e tênues gotas.

Por: Mauricio Luz


Créditos da imagem: Pixabay

O teu abraço

Por: Diogo Verri Garcia

O teu abraço

O teu abraço é muito mais que um abraço,
É um perder-se no espaço,
No desenrolar do tempo.
A ponto de o despertador
Caducar, permanecer em suspensão.

A exemplo de a hora chegar e não querer sair,
De o vazio não se completar, só para não se esvair;
E o abraço macio entregar-se ao afago,
Sem precisar explicar;
Sem carecer de argumentação.

O teu abraço
é meu melhor argumento.
É meu lado carente,
meu acontecimento.
Que faz a chuva chegar e não querer cair;
Pois que, mesmo possa nos aprisionar,
Ela não quer anuir
Perder-se esfacelada no vazio de um solo,
onde não há o abraço…
prazente tal qual o nosso, com tanta
afeição.

O teu abraço
é tanto mais que um sorriso,
No que a vontade não me cabe aos olhos e, assim,
me perturba.
E peço licença ao sangue que mancha as pedras,
à espada que serra as terras,
Às primaveras desnudas.
Do que me fala Neruda não importa mais…
que o teu afago.

O teu abraço
Cria até no vento frio ser tão boa aventurança.
Faz-me sentir-me alegre, em bonança
Por ver o mundo todo passar,
Por ter a vida inteira parada, a deixar…
E poder estar aqui…
em teus abraços.
E nem me queira rimá-los com teus passos,
Pois que me atormenta o daqueles sair.
E sem eles ficarei…triste a estar.
Só por andar, tonteante por aí.
Carente de paz,
Sem ter argumentação.

(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 03/05/2021)


Créditos da imagem: Pixabay

Por: Raquel Alves Tobias

Hoje não quero rima.
Tenho olhos pesados demais para enxergar.
A soma de ontem com anteontem cria novas rugas no rosto. Cílios improvisados seguem colados no espelho do banheiro.
Piscares lentos anseiam pelo colapso ininterrupto nas próximas oito horas.
Tolice! O relógio sempre desperta
as duas horas, dando voltas e voltas em décimos repetitivos.
Quer ser visto, marcar ponto.
De hora em hora procura o nada.
E nada encontra.
A dormência no quinto dedo repete a pontuação.
Diz não.
Então as lentes repousam sobre o criado:
Amanhã há mais espaço como os demais.

Raquel Alves Tobias


Créditos da imagem: Pixabay