Prosa Areada
Postado no 24 de junho de 2020 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

(Prosa areada)
Poesias trazem lembranças
São rememoranças nossas ou de um qualquer outro.
Que fazem do verso um guilhote;
Tornam o verso um sopro
De quem narra o amor que já passou e, antes do verso, era tanto esquecido.
O poeta a isso não viu,
Mas escreve tal como tivesse vivido.
E desperta, na alma de quem sabe,
A saudade que não sente.
Em linhas tantas que,
Nas mentes menos santas,
Fariam do verso caso pouco.
Ou o pretender jurar que o poeta
Amou feito louco.
A poesia é o sal que vem da gente.
É o agente que permite transbordar
Quando a mesmice nos encarde.
Na surpresa de um querer conversar,
E até versar Drummond de Andrade
Quando a prosa era não sobre verso,
Mas, em linhas duras, um falar sem canduras,
A tratar de Direito.
Como se tocar no peito
Fosse tão mais que um jeito, uma necessidade
De corroborar boas lembranças.
Ou aventurança
Que, por bem, não salvaguarde.
O verso é primeira manhã que eterniza
Ou a chuva que nos ameniza
E torna a ação cobarde.
É o sol que nasce à tarde
E se põe pela noite do dia seguinte.
É o poder em ter requinte
De mudar só em alma a realidade.
O desfrutar da crueldade
De reviver o amor que,
Nem tão melhor,
Tanto agrade,
Eis que imprensa, arrebate.
E sem se redimir,
Destina a nós um tanto de querer coibir
Dentre o negar
Sentir saudade.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 17/06/2020)
Créditos da imagem: pixabay
Fusão
Postado no 22 de junho de 2020 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Beijar na boca
É manter vivo o gosto da audácia
De penetrar o sabor alheio
É viver a adolescência, independente dos anos que se tem
É desvendar os mistérios do ritmo do outro
E impregnar a sua forma de se fazer presente, marcante, incessante
É estar atento aos movimentos
No momento do beijo
A boca é universo inteiro
Céu estrelado em dia de lua cheia
Brisa de maresia
Cadência batistaca, coração acelerado
Beijar na boca é sentir o respirar
Expansão e contração
Apreensão e relaxamento
Aperta, afrouxa
Morde, belisca
Arrisca-se a dançar a mesma dança do par
Num gosto molhado e deslizante
Toque de vinho frisante
Beijar na boca
É estado de profusão perfurante
Imersão numa bolha de absolutez
Ausência de qualquer sensatez
Onde tudo que se quer é gingar com a boca
Sentir o compasso…
Misturar-se
Fundir, mesclar, serpentear com os lábios
Beijar….
Créditos da imagem: pinterest
Rodrigo Cabral, no Pesca Poética
Postado no 21 de junho de 2020 Deixe um comentário

Hoje voltamos com mais um capítulo do “Pesca Poética“, espaço dedicado a lançar no oceano do Literarte as escritas, pensamentos, versos e entregas que talvez estejam escondidas pelo mar das palavras, no fundo de um caderno. Cabe lembrar, é um incentivo às falas do nosso público leitor , de modo a ganharem vida exterior.
No Pesca Poética de hoje, Rodrigo Cabral, com “Nosso Amigo”.
Nosso Amigo
Por: Rodrigo Cabral
Já veio e disse, mostrou e acolheu;
Ensinou, contemplou e refletiu;
Universalizou e amou;
Entre vidas viveu e não se recolheu;
Expor, lutar e enfrentar sem descansar;
Sonho germinou e a mensagem disseminou;
Semente que a poucos sensibilzou;
Mas a todos oportunizou;
Em harmonia congregou e acolheu;
Unidade e resistência;
Subjugado e vilipendiado, o perdão concedeu;
Sem segregar, levantou e curou a quem necessitou;
Simplicidade e vida;
Compaixão e solidariedade a florescer;
Pecúnia por retórica afastou;
O pão dividiu e a paz celebrou.
Carta à morte (Helena Lahis, autora convidada)
Postado no 20 de junho de 2020 1 Comentário
Por: Helena Lahis (autora convidada)
Hoje trazemos o texto inédito da talentosa escritora Helena Lahis (@helenalahis), sócia-fundadora da Editora Lago de Histórias e da Casa Cultural Lago de Histórias (@lago_de_historias). É também autora de diversos livros premiados nacional e internacionalmente, dentre eles, Olga, Mais felizes do que sempre, Bia Sem Pressa, Os medos da Bel, Soldado, Grande ou Pequena?, Vicky, A moça artista do topo do morro e Contos de encantar o céu.
Ela nos traz uma incrível reflexão, em uma carta enviada a ela: a Morte! Em uma conversa direta e muito sincera. É uma prévia de seu próximo livro, exclusivamente para o Literarte.
Confiram a seguir: Hoje, sábado, 20/06/2020, também no @literarteweb, além de aqui, no https://literarte.art/. Após o texto, curtam também o vídeo de apresentação, feito pela autora para o nosso canal.

Carta à morte
Quando você me encontrar, por favor, um pouco de delicadeza. Se eu tiver com algo a concluir, uma história, um beijo, uma garrafa de vinho ou uma noite de amor, senta um pouquinho, faz uma hora, não se apresse da minha demora.
Quando resolver que meu tempo acabou, eu te peço, tenha cuidado. Não me machuque, eu sempre fui amorosa. Além disso, faça um favor, ponha-se em meu lugar, sinta a minha dor.
Quando entender que preciso ir, morte, não chegue bruta, não chute a porta, não pise na grama, não ponha a mão no meu cabelo. Eu não gosto.
Quando acordar me querendo, queira com vontade. Não costumo ceder a galanteios frívolos e passageiros, de seduções rasas e diluídas.
Quando quiser mesmo escrever meu fim, escolha palavras bonitas. Abuse dos versos, recite baixinho no meu ouvido. Tenho queda por sussurros rimados.
Quando preparar meu enterro, saiba, não gosto de flores arrancadas. Prepare um jardim bem vivo, escolha o mais colorido, se possível perfumado. Tenho os sentidos bem apurados. Ah, por favor, me poupe de drama e choradeira. Prefiro lágrimas sentidas, pouco molhadas, discretas, contidas. Daquelas que derramam no silêncio da sala vazia quando a plateia já deixou o teatro.
Quando resolver beber do meu sangue, saiba, vou logo avisando, meu recheio é calórico. Nunca fiz dieta de vida, contenção de atitude, nem pensei duas vezes. Mergulho o pescoço e depois afundo a cabeça. Não ponho pezinho na água, nem arregaço a calça pra viver até o joelho.
Minha intensidade corre nas veias. Tem que ter a casca grossa pra não me transbordar.
Tenha a santa paciência e me espere ajeitar o cabelo, pintar as unhas, passar meu batom preferido, me ver bonita no espelho. Sou vaidosa e gosto de me aprontar. Seja um café da manhã, festa, encontro, trabalho, viagem, fim de tarde no terraço ou despedida de solteiro, costumo me arrumar com elegância. Aprendi que essas importâncias mostram cuidado com quem divide o momento comigo.
Por último, e sempre muito importante, não ponha a mão em mim. Já disse que sou rebelde, não grosseira. Escolho meus toques. Gosto de contato, calor, enrosco. Olho no olho, mãos dadas, abraço de fora a dentro. Mas já disse e repito: eu escolho quem brinca comigo. Mantenha a devida distância, aquela da sua própria segurança. Não pretendo dar vexame, mas posso começar um terremoto com direito a tsunami, se você avançar a linha e não respeitar a minha faixa de insegurança.
De resto, fique à vontade, sinta-se em casa, aceite um chá de pêssego. Vá assistindo, aí do seu camarote, os sonhos largos que de mim deságuam e fertilizam. Multiplicam e me espalham.
Saiba, vou te dar trabalho.
Sinto muito, é a vida.
Créditos da imagem: acervo pessoal da autora
Postado no 19 de junho de 2020 Deixe um comentário
Por: Victor Cabral

Mais sublime que as sagradas escrituras
O milagre da beleza de suas curvas
Os seus cantos e perfumes de romã
Todo o drama da poesia do islã
A serpente que criou os desertos
Os dedos que te tocariam, ainda que incertos,
Tocam as músicas que os Valar compunham
Amando os amores que os amantes dispunham
A grande explosão do primeiro dia
A perfeição que é você enquanto se despia
Manisfesto universo criado pra nós
O preto no branco, as rimas do verso
A cor do seu olho, olhada de perto
O prazer de estarmos nus e a sós
Agora eu juro que vou
Postado no 18 de junho de 2020 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

Agora eu juro que vou.
A amizade é algo realmente intrigante. Somos seres humanos, com histórias diferentes, famílias distintas, crescemos em meios diferentes, vivemos cada qual a sua caminhada e mesmo assim a gente vive amizades que parecem mais encontros de almas.
Quando jovens, a gente quer ter mil amigos, estarmos rodeados de barulho e agitação, sempre planejando a próxima “social” para reunir o pessoal. Nossas preocupações eram saber qual a mãe mais legal e liberal, para que este ser humano tão imaculado intervisse por nós com as outras mães. Ah, como eram momentos de tensão até sair o esperado veredito. Quando tínhamos a sonhada permissão, comemorávamos de forma tão radiante quanto um gol aos quarenta e cinco do segundo tempo na final da Copa.
Acontece que os anos vão passando e, de forma imperceptível e inconsciente, os caminhos se desencontrando em meio às obrigações que vão surgindo na medida em que vamos envelhecendo. Agora temos a liberdade de ir e vir sem a permissão dos nossos pais, mas nos falta tempo.
Hoje, em meio ao isolamento social, eu senti falta mesmo foi de poder encontrar meus amigos, de poder viajarmos juntos e compartilharmos muitas e muitas risadas e rodadas de cerveja em um copo sujo.
Isso me fez refletir a importância que tem a amizade nas nossas vidas e a importância que tem no cultivo delas.
Eu não vou negar que por várias vezes eu tive preguiça social e inventava uma desculpa esfarrapada para não estar naquele encontro marcado há um mês atrás. Ah, se eu pudesse imaginar o quanto eu sentiria falta deles, eu não hesitaria em estar presente.
Quando tudo isso passar, eu quero mesmo é receber amigos em casa, abastecidos com nosso arsenal etílico e com músicas tão ecléticas que mais parece ser uma playlist de uma pessoa com sérios conflitos de identidade (desculpe, Freud).
Quem diria que esses pequenos detalhes seriam tão importantes?
Fica o ensinamento da importância do agora, de aproveitarmos ao máximo a companhia daqueles que amamos e dos sorrisos que compartilhamos. Me aguardem, amigos, em breve teremos muitas viagens com boas histórias para me inspirar a escrever.
Créditos da imagem: oldwellPro por Pixabay
Poema do Verso Demudado
Postado no 17 de junho de 2020 Deixe um comentário
Por: Diogo Verri Garcia

POEMA DO VERSO DEMUDADO
Foi
Raiz da causa que apressava a alma,
Ainda que assim tão pura,
De tão aguda, antes já me desfez a calma
Feito a luz de uma cheia lua,
Feito dia, ampara e enternece.
Entretece a luz pequena de uma chama em vela,
Luminosa pouco quão, que na luz maior desaparece.
Aquela chama curta era meu peito antes de tal alma,
Agora que permite anseios, como antes nunca quistos.
Nem em sonhos se emaranhou em olhares, tanto a olhos vistos.
E de repente, nota que o bem maior a si também acontece,
Com isso, redesenha a intenção
Em construir, no chão de mares, Edifício.
Admirou-se pelo só lugar no mundo e no peito
Onde há algum frio desde o verão até o inverno.
Depois de tanto conhecer olhares,
não se fez tão a esse alheio,
Eis que nada é firme, nem eterno.
E nela, a incerteza sã, jogou-se à fé, à busca,
Sem dúvidas, sem partes dúbias,
Feito um carril na ladeira,
Frente à flama que era.
E sem freios.
Fez-se o bom lugar,
Que trouxe todo um novo mundo, em uma só comenda.
Um dia, olhou nos olhos, que amou demais.
E até a razão, que lhes deu tanto cartaz, não perquiriu emenda.
Chocou-se por perceber tal sorte, tão rápida, tão forte,
Como de uma só vez.
Hesitou jamais, mas sei que a concepção tão mais incapaz
Não compreendeu os ademais, nem os porquês.
Assim, veio ao verso exprimir a direção do andor.
Já que todo início mostra ser o fim melhor,
Pois vai, que o verso vai, que o amor passou.
(Diogo Verri Garcia, Rio de Janeiro, 13/06/2020)
Créditos da imagem: Julie Rose por Pixabay
Apenas certezas
Postado no 15 de junho de 2020 Deixe um comentário
Por: Bianca Latini

Apenas certezas
Já parou para pensar que quando estamos em dúvida, temos, na verdade, uma certeza?
Sim. Uma certeza de que algo não é.
Porque quando algo é alguma coisa, ele simplesmente é e ponto.
Já o que não é, é que não se sabe o que é.
Quando estamos diante de 3 caminhos e temos dúvidas sobre qual caminho tomar, provavelmente, nenhuma das 3 opções é boa. Daí ficamos em dúvida qual seria a menos pior. Se, dentre uma das 3 opções, uma fosse, de fato, boa à nossa percepção, haveria apenas essa certeza sobre o ÚNICO caminho a seguir, eliminando-se os demais,os quais não seriam opções e sim exclusões.
Assim, teríamos 1 certeza e 2 impossibilidades, 2 descartes, 2 cartas fora do baralho, entende?
Quando não decidimos algo, na verdade, estamos escolhendo: decidindo que nada daquilo queremos.
É bastante simples: onde há dúvidas, há um certeza negativa e onde há certeza, há uma certeza positiva.
E não confundam as coisas: quando falamos de certezas, não estamos falamos de imutabilidade, permanência, eternidade…
Nossas certezas são o retrato das nossas verdades naquele momento; nossos sentimentos, entendimentos, nosso mundo interior naquele exato quadrante de tempo. São a tradução do motivo pelo qual nosso coração pulsa.
Na vida: “tudo muda o tempo todo” e “tudo que se vê não é igual ao que a gente viu a um segundo”…
O que não quer dizer, também, que o que é agora e o que é daqui a um segundo são coisas antagônicas e excludentes. Podem ir numa constante crescente, numa contínua decrescente ou mesmo intermitente descontinuidade…
Mas lembre-se: em nosso caminho, dúvidas não há. Apenas certezas.
Especial dia dos namorados (“Namorar”, por Bianca Latini)
Postado no 12 de junho de 2020 1 Comentário
Caros leitores, publicamos hoje o especial Dia dos Namorados, do Literarte, com o poema “Namorar”, de Bianca Latini. Vejam também o vídeo.
Por: Bianca Latini
NAMORAR
Namorar é fitar o outro
Falar pela íris
Sorrir pelo olhar
Namorar é farejar seu encantamento a quilômetros de distância
É sentir o coração, na primeira estirada, acelerar
e na continuação da jornada, aquecer
É querer tatear
Ter alguma superfície de contato: mãos, falanges, coxas e até dedões do pé
Namorar é querer agradar
com mimos, flores, camafeus, aromas e principalmente sorrisos
Namorar é ter protocolo de comunicação
Ser surpreendido com beijo no cangote
Ser tirado para dançar
Bem no meio do salão
Namorar é suspirar pela lua
Enxergar o brilho de cada estrela
Namorar é rir de algo tão bobo, até doer a barriga e depois ter esse dia para lembrar
Namorar é deixar bilhete debaixo do travesseiro, na porta da geladeira, mensagem no celular
É Perceber os detalhes
Estar atento a cada movimento
Ter um dossiê das preferências do par
É esquecer do tempo, perder a hora, ficar vidrado naquele momento
Namorar não tem idade
Tem encantamento, envolvimento, presença, identidade
Namora-se até velhinho, desde que a criança marota e o adolescente audaz
não se calem dentro de ti jamais.
A justiça e seus sabores e dissabores
Postado no 11 de junho de 2020 Deixe um comentário
Por: Priscila Menino

Eu me peguei pensando no motivo de ter escolhido a minha profissão: advogada.
Se eu fosse bem racional e ignorasse meus devaneios, pensaria que na minha família não tinha ninguém advogando e seria, a princípio, mais árduo e penoso galgar o meu espaço no mundo juridiquês.
Hoje, com o advento de um auto conhecimento maior, percebo que foi uma forma pessoal de buscar ajudar o mundo com menos injustiças, pois essa pequena, mas impactante palavra me incomoda profundamente desde quando me entendo por gente.
Lembro-me quando me deparei na minha profissão com a primeira injustiça que vivi na pele, me rendeu boas noites de insônia e uma dor estranha latente no peito por indignação.
Ocorre que o conceito de injustiça é absoluto e simplista segundo o Aurélio, mas na prática é tão relativizado.
A nossa sociedade possa por mudanças constantemente e podemos afirmar que já evoluiu bastante na busca da garantia de uma mínima justiça. Hoje, por exemplo, negros e mulheres têm direito a ter voz ativa, independente do gênero, cor ou crença (ou deveriam ter, ao menos).
Me dói sentir a dor da injustiça em tantos casos que vemos por aí, saber que ser advogada não me dá superpoderes mágicos para mudar tanta coisa que vejo constantemente que me causam uma sensação desesperadora de que a vida humana não importa tanto quanto deveria nesse sistema louco que se diz civilizado.
Já nos alertava Lulu Santos: “assim caminha a humanidade, com passos de formiga e sem vontade”.
Bem, mas enquanto não posso mudar o mundo, posso, pelo menos, usar meus textos para levar um pouquinho de amor e de afago para quem ele alcance, afirmando que a injustiça será sempre dura para aqueles que tem empatia ao próximo, mas vamos fazer a nossa parte, mesmo que pareça ser apenas um grão de areia no meio do deserto do Saara.
Afinal, desde sempre e até que se prove o contrário, o amor e o sorriso são contagiantes e, ainda melhor, não custam nada. Um gesto de gentileza pode salvar a vida de alguém, um tratamento humanizado pode trazer esperança.
Meu desejo, minhas intenções, minha orações e meus pensamentos positivos é que estejamos caminhando para um mundo cada vez melhor, onde os Josés, os Joãos, as Marias, os Moisés, os Georges e todos nós sejamos tratados com humanidade, respeito e paz, até lá, nos perdoem… não percamos o otimismo e a fé.
